quarta-feira, setembro 22, 2004

Salsa y merengue (2)

La Lupe (1939-1992)
La Lupe (Guadalupe Victoria Yoli Raymond) distinguiu-se em vários géneros e ritmo latinos, abrangendo um leque que vai do bolero à salsa. Na verdade, teve uma forma de interpretação que saltou as convenções. Por esse estilo bravio tão pessoal conheceu epítetos como os de Yiyiyi, Too Much e, posteriormente, a escritora nova-iorquina Susan Sontag defeniu-a como "a primeira punk".
Esta cubana teve uma vida de culebrón. Nascida em Santiago de Cuba, filha de um modesto trabalhador da Bacardi, estudou para ser professora primária. Contudo, escapou a um modesto destino de docente em alguma aldeia da montanhosa província do Oriente. Aliás, desde cedo manifestou tendências artísticas que não conjugavam com a imagem de educadora, ainda por cima, com uma pose ostensivamente sensual, própria de mulata descaradona... Quando Castro y sus barbudos desceram da Sierra Maestra já estava na vida artística profissional e havia adquirido notoriedade. De imitadora de Olga Guillot passou a cultivar um estilo pessoal que manteve e desenvolveu. O título do seu primeiro álbum é significativo: Con el diablo en el cuerpo. Em programas televisivos reforçou essa imagem, nomeadamente com os pitorescos vexames que infligia ao seu submisso pianista Homero, como, por exemplo, descalçar-se e bater-lhe com um sapato.
Para o seu temperamento era impossível viver numa sociedade subordinada aos preceitos do novo regime. Seguiu a via da maioria dos artistas e exilou-se. Depois de uma passagem pelo México, estabeleceu-se em Nova York, onde retomou a sua carreira graças às possibilidades criadas pela apetência para experimentações de fusão entre jazz e ritmos latinos. Ao mesmo tempo, tornou-se popular na comunidade latina e conhecida de todos os públicos, graças a shows televisivos. Explorou o filão de interpretar de modo latino standards como Going out of my head e Fever ou êxitos emergentes da pop, como Yesterday. Em finais de 60 actuava com a orquestra de Tito Puente e era conhecida como The Queen of Latin Soul. Tornou-se, assim, uma figura do som latino.
Os excessos conduziram-na ao declínio a partir dos finais dos anos 70. Esse declínio está marcado por elementos anedóticos e dramáticos. Entre o anedótico temos um incontrolado arrebatamento que chegou ao ponto de rasgar as vestes em certo show televisivo, em directo... Entre o dramático temos a adição a drogas e álcool. Uma tentativa de refazer a vida em Puerto Rico apenas acabou por acentuar a decadência. Nos anos 80 viveu no Bronx nova-iorquino, na miséria e esquecida por todos. Viveu então uma rocambolesco cortejo de desgraças que ultrapassam a imaginação de qualquer guionista de culebrones: um dia vai parar ao hospital espancada por um ex-marido; outro dia, ao pendurar umas cortinas, cai e fica temporariamente paralisada; outro dia, ainda, a sua habitação é palco de um incêndio. Recupera-se parcialmente de tanta desgraça e adere a uma seita religiosa evangélica com a denominação O Fim aproxima-se! Nos últimos anos vida, até um ataque cardíaco a ter fulminado, dedica-se a pregar o evangelho de porta em porta...
Antes de desaparecer, quando, ironicamente, já renunciara à vida artística em prol da regeneração espiritual, alguém a resgatou do esquecimento. Foi Pedro Almodóvar, no filme Mujeres al borde de un ataque de nervios, colocando um dos seus temas na banda sonora. O tema é o extraordinário bolero Puro Teatro, do porto-riquenho Tite Curet Alonso. Foi o início do revivalismo da música de La Lupe. Em Espanha, a rádio começou a divulgar os seus velhos êxitos, que conheceram, assim, divulgação em plena década de 90. Tornou-se objecto de culto em certos meios.
La Lupe in Salsa Magazine 1

terça-feira, setembro 21, 2004

Salsa y merengue (1)

Aldo Matta - Soy del Caribe (1993)
Aldo Matta é um cantor porto-riquenho cuja maior notoriedade coincidiu com um terceiro lugar obtido num qualquer dos desqualificados festivais da OTI. A sua carreira tem-se desenvolvido de modo discreto e oscilante, mais pelos terrenos do cançonetismo. No que diz respeito à salsa tem feito algumas incursões. Nos inícios dos anos 90 uma dessas incursões rendeu uma canção notável e um álbum magnífico. A canção é Derroche e o álbum é Soy del Caribe. Esta fase proveitosa foi dirigida pelo produtor Frank Torres. Não teve, porém, continuidade. É pena. O álbum aqui em apreço é um dos melhores da salsa romántica, género surgido em meados dos anos 80 entre Nova York e Porto Rico. Desfila um conjunto de temas que são um instintivo convite à dança, ao mesmo tempo que possuem encanto melódico - é o caso de Para tenerte siempre, Una tempestad de besos e Me encanta verte así. Quanto ao tema Derroche, incluído na edição espanhola deste álbum, tinha aparecido no álbum anterior, de 1991, com o mesmo título, mas a sua distribuição limitara-se às Américas. Se é um facto que o erotismo atravessa quase todos os temas, neste atinge-se o clímax, o que sucede através da conjugação da letra com um tórrido ambiente sonoro. Pouco tempo depois a cantora espanhola Ana Belén interpretou uma versão que teve impacto. Também Julio Iglesias acabou por vir a interpretar a sua versão com aquele inexpressivo artificialismo delicodoce que constitui marca pessoal...
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quinta-feira, setembro 16, 2004

Mariachi y tequila (4)

Paquita la del Barrio - En vivo desde su lugar (1998)
Este álbum foi gravado ao vivo chez elle, ou seja, na Casa Paquita - restaurante que à noite se transforma em sala de espectáculos. A voz poderosa de Paquita não sai nada diminuída do registo ao vivo, bem pelo contrário! É uma voz autêntica, de um poder sem artifícios. Além disso, o calor humano enriquece a performance, já que o público, por vezes, sublinha ululantemente as passagens mais condimentadas. Com efeito, as tiradas contra los hombres malvados, as consequentes imprecações (me estás oyendo, inútil?) são acolhidas com estrepitoso regozijo. Musicalmente, impera uma sonoridade mariachi convencional. A função não pôde acolher todos os seus êxitos, mas estão presente alguns dos mais carismáticos e morbosos. Saliente-se que nas introduções nos apercebemos que, quando não está investida no acto de cantar, Paquita, em contraste com a sua imagem de la masacradora, fala com um sussurrante fio de voz e intui-se uma desconcertante timidez. Em várias entrevistas, este contraste já tinha sido enunciado por ela mesma, assumindo uma transfiguração em palco. Dir-se-ia que, a vários níveis, algo de freudiano enriquece o fenómeno de culto que Paquita la del Barrio constitui...
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Mariachi y tequila (3)

Paquita la del Barrio - Desquitate conmigo (1992)
Paquita la del Barrio é uma espécie de compêndio da música popular mexicana. Este disco é, provavelmente, o mais clássico e também aquele que assinala o início da fase de relançamento da sua carreira com uma qualidade de produção muito acima do que até então havia usufruido. Impera uma sonoridade entre cabaret e cantina (o nome dado aos saloons a Sul do Rio Grande). A temática mais apelativa está já num plano de desbragamento proto-insultuoso de amantes ingratos ou incompetentes... Destaque-se, além do tema emblemático que dá título ao CD (e que serviu também de ponta de lança da expansão da artista em Espanha): Una corona de azahares (azahar= flor de laranjeira); Cheque en blanco; Sentencia; Por que no he de llorar.
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Mariachi y tequila (2)

Señoras y señores, desde Alto Lucero, Vera Cruz: Paquita La del Barrio, la msacradora!
De seu nome Francisca Viveros, estabeleceu-se na capital onde começou uma modesta vida artística desenvolvida em torno do seu restaurante, Casa Paquita, situado num bairro popular. A sua música, desde sempre, enquadrou-se no género ranchero, o qual incorporou à sua maneira o bolero e outros estilos. Tornou-se conhecida em todo o México a partir de 1986, quando participou numa telenovela (María Mercedes) - tipo de produto que no mundo de língua espanhola é conhecido como culebrón (cobra grande). Tornou-se conhecida em Espanha, desde 1993, quando actuou com impacto na sala Xenon, na Gran Vía madrilena.
Paquita tornou-se objecto de culto entre uma elite, que adoptou alguns dos seus "gritos de guerra" (Eres un reloj sin menejillas!; Me estás oyendo inútil?) - imprecações aos amantes soltas no meio de canções de tom androfóbico - como uma espécie de senhas codificadas para um restrito grupo de iniciáticos privilegiados. Contudo, Paquita é mais, muito mais do que isso. É, entre outras coisas, uma voz poderosa e uma estética em contra-corrente com as modas efémeras de um mundo cada vez mais igual...

Para siempre boleros! (7)

Armando Manzanero - Lo mejor de lo mejor (2000)
Este duplo CD é a mais completa colectânea de Armando Manzanero. Tem 40 temas, entre os quais uns três ou quatro dos mais recentes (anos 80 e 90). Todos os seus êxitos estão aqui incluídos. Destaco: Esta tarde vi llover; Dime amor; Todavía; Si me faltas tú; Mía; Cariño mío; Como yo te amé; El ciego. O mais famoso de todos, Somos novios, acho-o bonito mas inferior a estes. Para mim, a voz andrógena de Manzanero confere a estes seus boleros um atractivo adicional.
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terça-feira, setembro 14, 2004

Para siempre boleros! (6)

Consuelo Velázquez
Alguns dos melhores boleros foram compostos por mulheres. Duas se destacam: María Grever (1885-1951) e Chelo Velázquez (1920). Ambas são mexicanas. Da sua produção emergem dois dos mais conhecidos boleros, respectivamente: Cuando vuelva a tu lado (+/-1925) e Bésame Mucho (1944).
Estava-se em plena 2ª Guerra Mundial quando estoirou Bésame Mucho - foram muitos os soldados e respectivas noivas que viveram em pleno o sentido dessa música... (Bésame, bésame mucho, como si fuera esta noche la última vez...) Nos anos 70, João Gilberto recria este tema, tornando-o extensamente voluptuoso. Note-se, como se pode apreciar numa entrevista feita a Chelo, que ela nunca tinha beijado nenhum homem quando compôs, com 17 anos, Bésame Mucho...

Para siempre boleros! (5)

Moncho
Moncho é diminutivo do nome próprio Ramón e, neste caso, nome artístico de Ramón Calabuch, cigano barcelonês, cujo apodo é El gitano del bolero. Nunca esteve propenso para o flamenco ou para a rumba, mas antes para o... bolero. Nos anos 70 atingiu alguma notoriedade, tendo, então, gravado LP's com excelentes arranjos e onde sobressaía a sua voz, entre o áspero e o aveludado, exactamente como aprecio. Os anos 80 foram um retrocesso na sua carreira - caiu no esquecimento, passou de moda. Ressurgiu nos anos 90 com novas gravações, embora produzidas com arranjos um pouco melosos, mantendo ou reforçando, porém, as suas qualidades interpretativas. Ultimamente fez gravações com um bom nível de produção, seguindo duas vias paralelas: por um lado, a tradicional, continuando a desbravar o território do bolero puro e duro; por outro lado, a inovadora, cantando boleros ou canções bolerizadas em catalão, incluindo alguns conhecidos temas de Joan Manuel Serrat. Ainda assim, sobressai, como não podia deixar de ser o sabor a bolero, sendo neste caso apropriado exclamar: Per sempre bolers!

Para siempre boleros! (4)

Tony Évora - El libro del bolero (2001)
Esta obra de um cubano radicado em Madrid, Tony Évora, é uma autêntica enciclopédia não apenas do bolero, mas, diria, sem exagero, da música ligeira hispano-americana. Detalha as origens e desenvolvimento do bolero. Referencia criticamente compositores e intérpretes.
Ideias básicas: o bolero nasceu em Cuba; as suas remotas raízes, aparentemente tão distintas, estão nas regiões levantinas de Espanha e em África. Os grandes centros criativos foram Cuba, México (em particular, DF, Yucatán, Veracruz, Jalisco) e Nueva York. Os Anos 40 e 50 foram o tempo de apogeu. Dominou o cenário da música ligeira de todo o mundo de língua espanhola até meados dos anos 60.
Maiores compositores: Agustín Lara, Ernesto Lecuona, Júlio Gutiérrez, Roberto Cantoral, Consuelo Velázquez, María Grever, René Touzet, César Portillo de la Luz, Tite Curet Alonso, Armando Manzanero. Maiores intérpretes: Tito Rodríguez, Rolando Laserie, Toña la Negra, Olga Guillot, Lucho Gatica, Viventico Valdés, Pedro Vargas, Antonio Machin, Los Panchos, La Lupe, Paquita la del Barrio.
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