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terça-feira, janeiro 06, 2009

Viagens (67): Norte de Itália / Julho - Agosto de 2001 (10)

7º Dia (6ª Feira)
O último dia foi dedicada às compras, tanto quanto o remanescente de liras e saldo do Visa permitissem. Entretanto, aprendi que os bilhetes para os eléctricos (e metro), no valor de 2.000 liras, eram exclusivamente comprados em bares, quiosques e estações de metro. Finalmente, o calor abrandara. Comecei por me dirigir à estação de Cadorna para me assegurar que era dali que saía o comboio para o aeroporto. Depois fui caminhando até ao centro. Não consegui encontrar a igreja desconsagrada que funcionou nos anos 70 como estúdio e onde Mina gravou alguns dos seus melhores discos.
Passei junto ao Castelo Sforzesco. É uma construção austera, com uma torre imponente, que se situa num parque. Os Sforza dominaram o Milanado nos finais da Idade Média. Depois, o território passou para a soberania da Casa de Áustria, vindo a integrar o Império Espanhol. Em meados do século XVII passou para o Império Austríaco. Assim se manteve até ao Rissorgimento. Há vestígios do domínio espanhol, mas há muitos mais do domínio austríaco. Até meados do século XIX as pessoas cultas dominavam tanto o italiano como o alemão. O povo falava milanês, o qual já não se ouve hoje em dia nas ruas - parece que subsiste nas zonas rurais. Escutei-o numa rádio local (Radio Meneghina) e soa assim como que uma mistura de italiano com francês.
Do Castelo Sforzesco parte a elegante Via Dante, que está reservada a peões... e bicicletas. Diga-se, que é frequente ver gente a andar de bicicleta, tanto nestas artérias como nas de trânsito normal. O castelo ainda dominava, ao fundo, quando uma curva me fez desaguar no Duomo.
Perdi-me nas livrarias e lojas de discos situadas à volta do Duomo. Não me admirei com a ampla oferta de temas de arte e arquitectura. A de mapas é também muito boa. Há uma abundante literatura sobre futebol. Quanto às lojas de discos, é visível que a fórmula Virgin é mais bem sucedida que a fórmula FNAC, ao contrário do que sucedeu em Espanha e Portugal.
Os quiosques têm uma oferta variada, quer pelas revistas, quer pelos diários provinciais. Contudo, em Milão mais de metade das pessoas que levam jornais nas mãos (e são muitas), fazem-no com o Corriere della Sera, que desde há muito (pese o nome) passou a ser matutino. Entre os quatro jornais de informação geral de difusão nacional, um está sediado em Roma (La Repubblica), outro em Turim (La Stampa) e os outros dois em Milão (Corriere della Sera e Il Giornale). São magníficos no conteúdo e conservadores no seu grafismo – as primeiras páginas têm texto, não são dominadas por grandes títulos e fotos. A ascensão de La Repubblica tem sido notável – é o hoje o jornal da opinião de esquerda, a nível nacional, equivalente ao El País, em Espanha. O Corriere della Sera é conservador moderado e traduz uma sensibilidade própria da burguesia do Norte de Itália. Entre os dois, a disputa pela liderança é cerrada e faz-se acima dos 700.000 exemplares de venda média diária! A vantagem vai ainda para o Corriere. Mais atrás, vem o jornal ligado à FIAT - La Stampa (300.000) - e o que de melhor produziu a constelação mediática de Berlusconi, o Il Giornale (250.000). Aqui, os índices de leitura de jornais são altos, mas a média nacional é inferior à de Espanha, algo que só se percebe se se souber que a sul de Roma esses índices são os mais baixos de toda a União Europeia.
Milão, estando muito longe de ser dominada pelo turismo, proporciona uma noção mais precisa da realidade social italiana. Impressionou-me a quantidade de orientais e árabes que vi. Era de esperar ver alguns negros com a tez própria dos somalis ou etíopes (antigas colónias italianas). Vi-os, de facto, mas em quantidade menor do que magrebinos, paquistaneses, tailandeses, vietnamitas... Finalmente, devo referir que os contactos com italianos deram-me deles uma imagem de simpatia natural, sorridentes e solícitos.
O comboio que me levou ao aeroporto de Malpenza, a meio da tarde, durou quase uma hora no trajecto. A minha última imagem de Itália foi, o avião levantando voo, a panorâmica do Lago di Como, do Lago Maggiore e dos Alpes. Bela imagem!

terça-feira, setembro 23, 2008

Viagens (66): Navarra, Guipúzcoa, Labourd (7)

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Desfiladeiro de Lumbier

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Viagens (65): Navarra, Guipúzcoa, Labourd (6)

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El Roncal

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quarta-feira, setembro 17, 2008

Viagens (64): Navarra, Guipúzcoa, Labourd (5)

Pamplona / Iruña
A capital de Navarra é uma cidade de identidade dividida, à imagem do seu duplo nome oficial. E a vários níveis pode-se assinalar uma espécie de sobreposição de duplas identidades: Castelhana vs Basca; Popular vs Burguesa; Tradicionalista vs Moderna... Curiosamente, já na Idade Média a cidade estava dividida em dois burgos: Navarrería e San Cernín; no primeiro concentrava-se a população basco-navarra; no segundo, a população de origem francesa. A junção formal não resolveu ferozes rivalidades. O edifício municipal, localizado precisamente onde hoje está o seu sucessor, de exuberante fachada barroca, foi, aliás, estrategicamente construído em local neutro, entre os dois burgos. Tão acusado estigma de divisões dá à cidade uma auréola de dramáticos excessos, para a qual concorre, ainda mais do que qualquer outro factor, a imagem de marca que granjeou no mundo à conta dos Sanfermines. Contudo, é uma cidade, onde, segundo os mais variados padrões, se vive bem. Como outras cidades de média dimensão do norte da Espanha, Pamplona permite gozar benefícios das metrópoles e benefícios do viver provinciano; mas tem acrescido pitoresco e casticismo. É na cidade antiga, precisamente nas artérias por onde correm os touros (com destaque para a Estafeta), onde se concentram tais atractivos. Aí se exerce o culto das tapas y pinchos em inúmeros bares e se patenteia a memorabilia sanfermínica em não menos numerosas lojas de recuerdos. São ruas estreitas e antigas, repletas de gente, situadas em torno da ampla Plaza del Castillo, onde há música e outros espectáculos de rua.
Fora do perímetro antigo, temos os Ensanches, onde impera o sossego, o bem-estar burguês provinciano. Alarga-se em avenidas arborizadas, entremeadas por parques. Destacam-se edifícios modernos - hotéis, empresas, escolas, clínicas e hospitais. Com efeito, aí aprecia-se uma outra faceta menos conhecida do turista comum: a de pólo universitário e hospitalar. O seu centro é a Universidad de Navarra, abrangendo várias instituições de ensino, clínicas e hospitais privados. É um complexo de excelência, conotado com a Opus Dei. Está na vanguarda em certas especialidades da ciência, em particular, da medicina. Por esta razão, aqui se realizam congressos e afluem estudantes, investigadores e doentes. Os modernos hotéis florescem muito mais à conta desses visitantes do que dos turistas festivos dos Sanfermines. É interessante, como o tradicionalismo católico, que sob a forma de carlismo aqui se implantou beligerantemente contra a modernidade, de algum modo contribuiu para uma certa forma de modernidade. Hoje em dia, não é obvio rever em Pamplona o feudo reaccionário que foi em momentos decisivos da história contemporânea espanhola. Exige um certo esforço imaginar, por exemplo, o General Mola a abrir as hostilidades da Guerra Civil, arengando numa Plaza del Castillo repleta de fanáticos carlistas, prontos para todas as violências, de cruz em riste... Além do mais, as marcas do tradicionalismo, patentes em algum património monumental, parecem desfasadas da cidadania ou ambiguamente valorizadas. A ambiguidade está na exaltação do ambivalente autonomismo fuerista, que é partilhado pelo tradicionalismo e pelo nacionalismo basco. Aliás, marcas mais evidentes, ainda que, talvez, mais artificiais, são as da identidade basca. Artificiais, porque parecem decorrer mais do militantismo político do que da realidade sociológica. Três exemplos: Veêm-se mais ikurriñas (bandeiras bascas) do que bandeiras navarras, não obstante não terem acesso aos edifícios oficiais; não são raras as manifestações de apoio aos radicais independentistas bascos (presenciei uma, silenciosa, de familiares de presos etarras), mas a maior parte das pessoas é-lhes indiferente ou hostil; todas as artérias estão rotuladas em castelhano e basco, mas, ao contrário das pequenas localidades do norte de Navarra, não se ouve falar basco nos bares e nas rua.
Há ainda a Pamplona periférica, constituída por localidades suburbanas (Villava, Huarte, Berrioplano, Berriozar...). São bairros residenciais e zonas fabris. Lembra-nos que a cidade é um pólo industrial composto por pequenas e médias empresas e por uma grande fábrica, da Wolkswagen. É uma zona onde se reencontra a paisagem suburbana comum às periferias citadinas de Espanha, composta por bairros incaracterísticos de classes médias baixas e por recentes urbanizações de vivendas geminadas, de sectores sociais mais elevados. Entre estas, encontram-se algumas zonas residenciais de qualidade, como Zizur Mayor/Zizur Nagusia. Seja como for, esta realidade dá-nos conta desse delírio de especulação infrene assente na construção civil, que assolou a Espanha nos últimos anos. Felizmente, no caso de Pamplona, algumas das consequências urbanísticas menos agradáveis são atenuadas por uma progressiva transição para um ambiente rural. Com efeito, rapidamente se entra num cenário de belas paisagens, em especial, pelo Norte, onde vislumbram-se já os encantos dos Pirenéus. Sublinhe-se este aspecto, já que, efectivamente, o enquadramento geográfico é uma mais-valia para a cidade, a qual está num vale formado pelo Rio Arga, entre as montanhas e a meseta. É um local estratégico, a um pulo de realidades humanas e naturais de grande beleza, mas contrastantes.

segunda-feira, agosto 25, 2008

Viagens (63): Navarra, Guipúzcoa, Labourd (4)

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Ainhoa

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Viagens (62): Navarra, Guipúzcoa, Labourd (3)

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El Baztán: Elizondo

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Viagens (61): Navarra, Guipúzcoa, Labourd / 2008 (2)

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San Sebastián / Donostia

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Viagens (60): Navarra, Guipúzcoa, Labourd / 2008 (1)

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Pamplona / Iruña

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sábado, maio 10, 2008

Viagens (59): Barcelona, Girona, Figueres e Montserrat / 2007 (4)

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Girona

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Viagens (58): Barcelona, Girona, Figueres e Montserrat / 2007 (3)

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Montserrat

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terça-feira, abril 22, 2008

Viagens (57): Norte de Itália / Julho - Agosto de 2001 (9)

6º Dia (5ª Feira)

Nesta viagem, o hotel de Milão foi o melhor de todos e, curiosamente, também o mais barato. Estava localizado na zona ocidental, próximo do recinto de exposições, sendo esta proximidade apresentada na sua página web como a sua maior vantagem. Porém, a localização afastada do centro implicava a utilização de transportes públicos. O metro era o mais prático, só que estava um pouco distante. A alternativa era o eléctrico. Com efeito, Milão tem linhas de eléctrico com composições de cor alaranjada, compridas e estreitas. Logo de manhã o objectivo era ir à Igreja de Santa Maria delle Grazie, a fim de garantir a entrada para o Cenáculo, onde está a Última Ceia de Da Vinci. Não queria correr o mesmo risco que em Florença. Sucede que a igreja ficava perto e para lá chegar bastaram alguns minutos a pé, por agradáveis zonas residenciais, onde se respirava conforto e bom-gosto burguês. Quando cheguei à igreja, comprovei que, definitivamente, a avalanche turística não chegara ali; havia bastante gente mas nada que se comparasse com o que se vira nos dias anteriores. Mesmo assim foi necessário fazer uma marcação para as duas da tarde. Assim, o objectivo imediato tornou-se, entretanto, o centro, via eléctrico. Quando ao entrar fazia menção de pagar os bilhetes, o condutor fez um simpático sorriso, abanando a cabeça – não vendia bilhetes; ao mesmo tempo, fechou as portas e senti-me, assim, convidado a viajar à borla. Ocorreu-me que seria de aproveitar para visitar o Museu do Teatro alla Scala. Milão é a capital do mundo operístico. Nova Iorque (Metropolitan), Londres (Covent Garden), Paris (L’Opera) e Barcelona (Liceo) são os pontos fulcrais do circuito operístico, mas La Scala é o mais importante. O museu está no edifício do teatro e não só acolhe um amplo espólio de adereços de artistas e compositores como proporciona uma panorâmica da sala de espectáculos a partir de alguns camarotes. Causa impacto estar naquela sala tão famosa, que, tanto quanto sei, é parecida com a do São Carlos. Perto de La Scala está o “quarteirão da moda” (Il Quadrilatero). Do que se seguiu, só vi coisa comparável na parte superior da Quinta Avenida de Nova Iorque. A Via Monte Napoleane, a mais importante das que compõem o quarteirão, é toda ela glamour. Montra após montra deparamo-nos com sofisticação. Zara e outros simpáticos contributos para melhorar a indumentária popular não tem ainda guarida aqui. É coutada de Versace, Ferragamo, Giorgio Armani, Gucci e afins... Aqui estão as suas sedes. São lojas amplas e espaventosamente decoradas. Os preços são inverosímeis. Encarar um par de sapatos que ostentasse menos de 250.000 liras (25.000 escudos) foi impossível. A média não deveria andar longe das 500.000. Mas havia abundância de preços delirantes, que eram mais do que inacessíveis... Apesar da minha quase indigência em matéria de roupa, não desdenho sempre quem se veste bem – é uma algo que não é demasiado importante para mim, mas não encaro como inconveniente em certas pessoas... O certo é que gostei do que vi. Bem antes das duas horas estava de novo junto a Santa Maria delle Grazie. O regresso fora de eléctrico e... (outra vez) à borla - sempre era mais agradável que de metro e... pagando. Era um modesto contributo para dar razão ao qualificativo portoghese que em Itália, desde uma embaixada quinhentista de D. Manuel I a Roma, significa borlista ou "penetra".
São impressionantes os cuidados que rodeiam a visita ao Cenáculo. Para ver um dos mais famosos frescos da humanidade os visitantes são filtrados de modo a que lá dentro o número de presenças seja sempre reduzido. A Última Ceia apreciada no seu verdadeiro contexto parece estranha. À força de tanto vê-la reproduzida, resulta insólito verificar que ocupa toda a parte superior do espaço de uma parede, que nem sequer é muito ampla e que colide com a ombreira de uma porta, a qual lhe rouba espaço vital.. As cores são tão suaves que se tornam esbatidas, mas a sensação de profundidade é notória, sobretudo quando nos afastamos. No exterior havia todo o tipo de informações, incluindo as referentes aos trabalhos de restauro, por conta da Olivetti. É um pequeno espaço museológico exemplar que sabe enquadrar da melhor maneira o que apresenta.
O resto da tarde foi passado no quarto do hotel - formidável refúgio do calor que não dava tréguas. À noite voltei ao mesmo restaurante da véspera e cirandei pelas lojas da
Galleria Vittorio, em particular pela labiríntica livraria Feltrinelli...

quarta-feira, outubro 24, 2007

Viagens (56): Norte de Itália / Julho - Agosto de 2001 (8)


5º Dia (4ª Feira)(noite)

Tinha combinado encontrar-me no bar da FNAC de Milão com um participante do Forum na Internet sobre Mina. Era um dos participantes que menos se dava a conhecer, a ponto de não saber ao certo o fazia, nem a sua idade. No terceiro piso da FNAC, em pleno bar, não tive, contudo, dificuldade em o identificar num vulto de quarentão, com óculos muito graduados, que avançava na minha direcção. Para além dos naturais problemas idiomáticos, os problemas de comunicação foram acrescidos pela sua timidez. Imediatamente, de um saco a tiracolo retirou um magote de velhos singles de Mina, editados por esse mundo fora, nos idos de 60 e 70. Havia edições japonesas e até uma de Angola. Eram preciosidades para um coleccionador. Depois mostrou-me alguns CD’s promo (promoções para rádio) e entendi que os estava a oferecer-mos. Só perante o seu ar aflito me apercebi que, afinal, não era isso - estava a propor que eu os comprasse. Rejeitei atarantadamente a proposta. Senti-me sem jeito e ficou no ar uma pesada sensação de gaffe... Tanto que, quando o convidei para jantar, esperava que não aceitasse. Mas não só aceitou, como, simpaticamente, se prestou a desempenhar papel de guia. Mostrou com entusiasmo os vestígios romanos de Mediolanum ali bem perto e forneceu informações que nenhum guia de papel pode dar. Mas era, definitivamente, uma pessoa estranha, tão afastada quanto se possa imaginar do estereotipo italiano. Verifiquei que, numa cidade em que, normalmente, se é furiosamente nerazzurro (Inter) ou rossonero (AC Milan), tinha perante mim um exemplar neutro… que odiava futebol. O seu passatempo preferido era, disse enfaticamente, deambular solitário pelas montanhas... Conduziu-me a um restaurante, onde se comeu bem e a preço razoável. No final, queria pagar a sua parte da conta..! Não consegui deixar de me espantar com tal alarde de mesquinhez, que resolutamente rejeitei. Fosse como fosse, apesar das situações constrangedoras, houve uma agradável e interessante troca de impressões, que, entre outras coisas, me permitiu concluir que o salário de um professor italiano é em termos absolutos inferior ao nosso e em termos relativos ainda mais baixo. Era anti-berlusconiano e também não gostava de Umberto Bossi, líder da Lega Nord. A propósito perguntei-lhe se ainda se falava dialecto milanês, ao que me respondeu que nas cidades já não, mas que nos campos ainda era falado por idosos. Lembrava-se que na sua juventude ainda era corrente escutá-lo pelas ruas de Milão. Adorava a sua cidade, a qual, dizia, não trocava por nenhuma outra. De Portugal não sabia nada, nem os superficiais lugares-comuns. Parecia não ter interesse nenhum em conhecer Portugal ou Espanha. O único grande interesse que tinha por terras estrangeiras era por Paris. A minha afinidade com ele limitava-se a gostos musicais, desde Mina a Nino Ferrer. Despediu-se inopinadamente em pleno Duomo e, depois de tudo, acabei por não estranhar o modo desconcertante como desapareceu.
O Duomo é sensacional, pela fachada da catedral, pela amplitude da praça, pela Galleria Vittorio Emanuelle. Esta é composta por um cobertura sobre duas ruas e uma ampla abóbada no seu cruzamento. A estrutura é de vidro e ferro e os edifícios têm a traça da melhor arquitectura da segunda metade do século XIX. Aí, o comércio é do mais refinado. A livraria Feltrinelli, por exemplo, é majestosa. Aqui, como em Espanha, traduz-se tudo e a oferta abrange uma variedade por cá inimaginável. Regressei ao hotel atormentado pelo calor. Na ida e na vinda utilizei o metro, que cobre quase toda a cidade. Como o de Madrid, Barcelona ou Nova Iorque é mais feio que o de Lisboa, mas mais funcional.

sábado, agosto 25, 2007

Viagens (55): Barcelona, Girona, Figueres e Montserrat / 2007 (2)

Festa Major de la Vila de Gràcia - X Trobada Castellera 19/08/2007 (2)

quinta-feira, agosto 23, 2007

Viagens (54): Barcelona, Girona, Figueres e Montserrat / 2007 (1)



Festa Major de la Vila de Gràcia - X Trobada Castellera 19/08/2007 (1)
Na minha recente estadia na capital catalã (a quinta) procurei ver coisas que há muito aguardava ter oportunidade de ver. Uma delas era assistir a uma diada castellera - jornada de torres humanas tradicionais, à maneira catalã. Admitia, para tanto, deslocar-me no domingo, 19 de Agosto, a Tarragona, onde, por motivo das celebrações de Sant Magí, havia uma diada castellera na Praça da Catedral. A cidade está numa zona castellera, onde estão implantadas as collas (grupos de castellers) mais famosas. Com efeito, é, sobretudo, nas comarcas meridionais da província de Barcelona (Alt Penedès) e setentrionais da província de Tarragona (Alt Camp) que os castellers gozam de popularidade, havendo competições regulares e assanhadas rivalidades. Porém, dificuldades de vária ordem levaram-me a optar por uma jornada bem mais modesta, levada a cabo nesse mesmo domingo em Barcelona, no bairro de Gràcia, por motivo da celebração da Festa Major local. A miserável climatologia deste verão atípico fez das suas... Choveu (e trovejou) intensamente. A jornada começou tardiamente e acabou por se realizar sem o brilho que merecia. Participaram três grupos: um, local - Castellers de la Vila de Gràcia; dois, forasteiros - Xicots de Vilafranca e a Colla Vella del Xiquets de Valls. Aqui ficam uns clips que ilustram um pouco do que aconteceu. De notar que existe uma técnica que tem vindo a passar de geração em geração, envolvendo as crianças (la canalla), as quais, aliás, têm um papel de destaque, já que as partes mais altas dos castells são construídas por elas, dada a sua ligeireza e destreza. É, enfim, uma tradição característica da força da cultura popular catalã.

Web: página oficial


quarta-feira, março 21, 2007

Viagens (53): Norte de Itália / Julho - Agosto de 2001 (7)

5º Dia (4ª Feira)(manhã/tarde)
Era o último dia em Florença. Às duas horas da tarde tomaria o comboio para Milão. A manhã estava destinada, custasse o que custasse, a visitar a Galleria dei Uffizi. Mas, uma vez aí chegado, a bicha que se me deparava foi um desafio à maior tenacidade… Ao fim de três quartos de hora continuava no mesmo sítio. Nessa altura foi difundida informação de que me aguardavam três horas de espera! Ou seja, quando lá entrasse, disporia de meia hora até chegar ao comboio… Abandonei a bicha em errância ociosa e frustrada. Foi uma despedida melancólica que se foi arrastando até à estação. Este é, talvez, o único edifício moderno do centro, mas com uma arquitectura de qualidade. Em todo o caso não foi por considerações de ordem arquitectónica que acabei por chegar tão cedo. Fui-me arrastando do átrio exterior para o átrio de embarque porque estava um tanto frustrado com a cidade, tal como me foi dado vê-la. Queria ir embora, na certeza de que gostaria de voltar um dia em circunstâncias bem diferentes.
Sempre me atrairam os comboios. O que me poria em Milão em duas horas era rápido, silencioso e confortável. Não era de alta velocidade, mas não estava longe desse nível. Os Apeninos foram atravessados em estreitos vales e intermitentes túneis. Em pouco mais de meia hora estava na Emilia Romagna e pouco depois parava em Bolonha - a sua principal cidade. Esta é a região de mais elevado nível de vida da Itália. Ocupa a metade sul da planície do . A fertilidade dos seus campos já era celebrada nos tempos em que os romanos construíram a Via Emilia, que acabou, aliás, por dar o nome à região. Não é apenas a agricultura que é produtiva. Alguma da tecnologia mais desenvolvida do mundo tem aqui a sua sede. Basta mencionar um símbolo: Ferrari. É também um território tradicionalmente esquerdista... Foi-o sobretudo no passado, graças ao peso de um extenso proletariado agrícola. Bolonha foi durante muito tempo um exemplo de gestão do PCI, que tinha aí uma espécie de feudo modelar. Por outro lado, foi também nesta região onde surgiu, nos anos vinte, a mais poderosa base de apoio do fascismo, entre os grandes agrários e as classes médias das suas cidades provincianas. Enfim, ao longo do século XX foi um cenário de bipolarização extremada. Não por acaso, as tramas burlescas de Don Camillo (série de filmes dos anos 50, protagonizados por Fernandel), estavam situadas num aldeia da região.
A seguir a Bolonha o comboio passou por Modena, Reggio nell’Emilia, Parma (cidade de Giuseppe Verdi), Piacenza. São cidades com história, de média dimensão. A planície, sempre verde e salpicada de casas, estende-se até perder de vista.
Entre e Piacenza e Cremona chegou-se à Lombardia. O povoamento tornou-se ainda mais denso. O arredores de Milão foram anunciados pela suburbanização da paisagem. A Estação Central de Milão é monumental - quer pela quantidade de linhas, composições e gente, quer pelas dimensões do edifício. Pode-se dizer que se desembarca em cenário imponente. O percurso de táxi até ao hotel trouxe-me uma impressão inicial que não podia ser melhor. É de bom tom dizer-se que, para além do Duomo e da Útima Ceia, Milão mais nada tem que ver... Sempre suspeitei que tais impressões resultariam de a ver com os mesmos olhos com que se vê Veneza, Florença, Roma. Pelo que sabia, achava que a capital económica da Itália não seria, necessariamente, desinteressante. Acertei. Aliás, transcendeu as minhas expectativas. É uma cidade elegante e, além disso, deu-me desde logo uma sensação: de todas as cidades conhecidas (Nova Iorque incluída) deveria ser a de mais elevado nível de vida.

terça-feira, março 06, 2007

Viagens (52): Mallorca / 2005 (3)

Sóller - A toponímia
Quando estive num quente dia de Agosto de 2005 em Sóller, não deixei de tirar muitas fotografias (desde que passei à tecnologia digital em matéria de fotografia, dexei de me preocupar com a quantidade...). Também, como de costume, procurei alguns lugares mais recônditos. A cidadezinha é pequena e o seu centro está abarrotado de turismo, porém as marcas rurais espreitam por todo o lado. Apenas cons uns metros de expedição achei testemunhos das tradições que lhe deram a fama e proveito como centro produtor de citrinos. Essa ancestral ruralidade é visível na toponímia local do modo que acima se pode constatar. Uma das principais praças ostenta o nome Plaça des Mercat (Praça do Mercado) e, muito mais significativo, não longe daí, encontrei uma artéria com o nome Camí de s'hort de ses ties (Caminho da horta das tias). Estes pormenores são também uma oportunidade para salientar que no dialecto maiorquino, ao contrário do catalão padrão, ainda há o artigo neutro (es) e o feminino é sa (singular) e ses (plural) e não la e les, respectivamente.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Viagens (51)

Atlas de estradas Michelin - Portugal & Espanha 2007
Cada ano, por esta altura, compro o atlas de estradas Michelin de Portugal e Espanha. Para o conjunto dos dois países é o mais actualizado mapa de estradas que existe. Além do mais é uma cartografia apelativa e eficaz. Este ano apresenta um atractivo suplementar: tem uma escala maior (passou de 1:400.000 para 1:350.000). Para quem é adito a mapas, como é o meu caso, é uma novidade de monta. Continuo, porém, pouco agradado com o formato desdobrável que se vem repetindo nos últimos anos. Apreciava mais o formato tipo álbum de edições mais antigas. Ignoro se continua a ser editado nesse formato, mas nos últimos três anos só tenho encontrado edições desdobráveis.
Para mim os mapas são também, em si, um veículo para viajar sem sair de casa. É algo que não precisa de detalhada explicação para quem tem sensibilidade e educação geográfica, se bem que seja uma cartografia de outro tipo a que melhor corresponde a tais emoções. Em todo o caso, é o instrumento ideal
para preparar e orientar viagens de automóvel, assim como uma rica e variada fonte de informações adjacentes. Um exemplo: verifica-se que de ano para ano a rede de auto-estradas e vias rápidas portuguesas não cessa de se expandir. Aparentemente, a densidade desta rede deve ser já superior à espanhola. Mas, até mesmo os bons mapas têm os seus limites... Assim, a experiência real diz que a qualidade da rede primária e, sobretudo, da rede secundária é inferior à espanhola. Em quase todos os aspectos: da qualidade do pavimento à sinalização. Pode-se dizer que a qualidade da rede de autovías (estradas com faixas de rodagem separadas) espanholas é pouco inferior à das auto-estradas portuguesas, com a óbvia vantagem de não ter portagens. As autopistas (auto-estradas) têm um nível idêntico às nossas, com portagens ligeiramente mais caras. As áreas de serviço convencionais são em Espanha de qualidade muito variada. Em Portugal são de qualidade mais homogénea e a média será um pouco superior. Contudo, toda a rede de estradas em Espanha tem um conjunto de serviços de apoio muito mais extenso e variado (restaurantes, motéis, hotéis, restaurantes, bares). Em síntese, devo dizer que as estruturas para viajar de automóvel em Espanha são superiores. The last but not the last: se em Espanha se conduz mal, em Portugal conduz-se muitíssimo pior, de forma agressivamente suicida...
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quinta-feira, janeiro 11, 2007

Viagens (50): Norte de Itália / Julho - Agosto de 2001 (6)

4º Dia (3ª Feira / tarde)
A chegada a Siena não proporcionou uma vista panorâmica, pois a cidade estende-se por uma encosta em sentido oposto àquele por onde tinha entrado. É amuralhada. Detém um património riquíssimo. Perdeu importância desde finais da Idade Média, mas não se pode dizer que ficou à margem do tempo. Tem cerca de 50.000 habitantes e é capital de província.
Desgraçadamente, o calor era ainda mais intenso. Entrar no centro da cidade com o carro era impossível. Mas, tal como tinha verificado na planta, do local onde estava até ao centro era mais de um quilómetro, por ruas muito estreitas. Estacionado o carro num terreiro do lado exterior das muralhas, decidi tomar um transporte urbano - um dos mini autocarros que já tinha visto passar. Em menos de um quarto de hora, surgiu um que me levou até à praça da catedral. A fachada é mais exuberante que a de Florença e de grande beleza. O interior é, provavelmente, mais valioso, quanto mais não seja pela decoração do pavimento. Além disso, mais prosaicamente, era um refúgio para o calor... Infelizmente, assim sentia também a multidão de turistas que a abarrotava... Era demasiada gente. Em face da situação, tornou-se pertinente procurar a famosa Piazza del Campo.
Sempre a descer cheguei à mais bela praça alguma vez vista. A torre do Palazzo Comunale domina um vasto terreiro em semi-circulo. As casas de tonalidade rosada reforçavam a luminosidade, de modo que, vindo da semi-obscuridade das ruelas, foi grande o impacto. Nesta praça realiza-se, duas vezes por ano, o Palio – corrida de cavalos realizada com todo o aparato medieval. Cada cavalo representa uma contrasta (bairro).
Siena tem uma antiga e prestigiada universidade, o que reforça ainda mais o seu valor. Segundo o meu conceito de cidade, é um exemplo de perfeição (sem o atroz calor que assolava...). À primeira vista viver lá é um privilégio. Não me esqueci, precisamente, que devido às suas funções docentes na universidade, aí vive Antonio Tabucchi, o mais destacado lusófilo da intelectualidade europeia. Vi-o uma vez, numa noite de verão, na mesma bicha em que eu estava para jantar, num restaurante de Santa Luzia (Tavira), em situação vulgaríssima de férias familares. Tabucchi será duplamente privilegiado, pois, parece, que vive metade do ano neste paraíso e a outra metade na parte antiga de Lisboa, o que, sob certas condições, não deixa de ser também um privilégio.
No regresso a Florença quis entrar pela estrada que passa junto ao Belvedere de Piazzale Michelangelo. É um miradouro que está em Oltrarno, ou seja, do outro lado do Rio Arno. Parei e apreciei a vista panorâmica. Lá está também outra réplica de Davide. É por aqui que se deve entrar na cidade, pois é uma apresentação digna de bilhete postal.
Depois, andei por zonas periféricas para conseguir encontrar a garagem onde teria de devolver o carro alugado. Não foi fácil. Nessa busca passei junto ao Stadio Artemio Franchi onde joga a Fiorentina e onde, até poucos dias antes, Rui Costa exercera de ídolo. Eram vários os cartazes publicitários onde estava presente. Nas páginas do diário local La Nazione, a comoção pela perda do jogador para o AC Milan era testemunhada em vários artigos – o acontecimento era apresentado como o símbolo da falência da societá viola, que se via, assim constrangida à lógica de “vão-se os anéis, ficam os dedos...”.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Viagens (49)

Marcel Schweitzer - Les guides bleus: Espagne (1935 / 1949)
De um tempo anterior ao turismo de massas veio este sóbrio Guia de Espanha. Nada de fotos. Apenas texto, muito texto (em letra miudinha), mapas e plantas de cidades. Um texto veiculando uma típica visão francesa de Espanha, mas informado e culto. Com o tempo, estes guias da Hachette perderam projecção, sobretudo em relação aos da Michelin. No entanto, estes são representativos de um modelo clássico, puro e duro - a matéria é Geografia, História, Arte. As mundanidades, alojamento e restaurantes aparecem discretamente em listas informativas, como apêndices. Há um outro atractivo: a Espanha a que nos reporta é aquela que foi cenário da Guerra Civil. Está mais perto do século XIX, do que da actualidade.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Viagens (48)

Cees Nooteboom - De omweg naar Santiago (Caminhos para Santiago) (1992)

"A Espanha é brutal, anárquica, egocêntrica, cruel; a Espanha é capaz de cavar a própria sepultura por razões absurdas, é caótica, sonha, é completamente irracional. (...) Quem percorreu apenas os circuitos obrigatórios não conhece a Espanha. Quem não tentou se perder na complexidade labiríntica da sua história ignora o país por onde anda. É um amor para toda a vida, o espanto não tem limites."

Cees Nooteboom

Nas crónicas de viagem do holoandês Cees Nooteboom revi a minha concepção de viajante. Na sua forma de apreciar a Espanha, revi também a minha. Este livro, de edição brasileira, é uma compilação das suas crónicas de viagens através de Espanha. Santiago é um destino pretexto para deambulações pouco liniares pelos interstícios da pele do touro, além de ser uma referência oportuna para evocar um trajecto de devoção. Não é, evidentemente, aquela Espanha do turismo de massas... Por aqui não há Benidorm ou Torremolinos, mas antes severos lugarejos da meseta, perdidas aldeias de montanhas, esconsos callejones ou amplas plazas mayores de urbes que transpiram história... Esta forma de ser viajante é uma capacidade de percepção e sentir através da geografia e da história. No caso das terras de Espanha é, necessariamente, um exercício que só tem a ganhar se for inspirado por uma sensibilidade trágico-romântica.

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