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quarta-feira, março 04, 2009

Tiro ao alvo (24)


La Lupe - Puro teatro
Eis um inesperado aproveitamento de Puro teatro: uma sátira a Fidel Castro. Em boa verdade, o reduto mais radical e influente do exílio anti-castrista, em Miami, tem tido sempre, regra geral, posicionamentos pouco inteligentes e desinspirados, desde o Desembarque da Baía dos Porcos ao Bloqueio. No confronto entre castristas e anti-castristas raramente tem havido sensatez e inteligência. Sempre tem sobrado muita retórica e demagogia nos dois bandos. Ao menos este é um exercício que irrompe por terrenos mais imaginativos...

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Tiro ao alvo (23)

Medina Carreira in Nós por cá (SIC) (05/01/2009)

domingo, dezembro 28, 2008

Tiro ao alvo (22)

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Laurent Cantet - Entre les murs [A turma] (2008)
É um filme francês feito com poucos recursos, mas laureado com a Palma de Ouro do Festival de Cannes. Num mercado cinematográfico cada vez mais dominado por Hollywood é saudável que um filme assim consiga encontrar lugar. Acresce que o filme não só se afasta dos padrões de evasão como procura uma aproximação à realidade. Nesta procura recorre a fórmulas que em tempos caracterizaram alguns exemplos de neo-realismo, como o facto dos actores não serem profissionais e, inclusivamente, do protagonista, François Bégaudeau, ser o próprio professor que escreveu o livro que serve de argumento. Além do mais, ao debruçar-se sobre a realidade escolar, mexe numa ferida actual: o problema da educação. Fá-lo numa perspectiva de professor, note-se; o que, desde logo permite que se percebam alguns problemas concretos que o exercício desta profissão, hoje em dia, acarreta. Mas a origem e os efeitos destes problemas têm uma escala muito ampla e implicam toda a sociedade.
Desde logo se impõe uma reflexão preliminar: o problema da educação é global; parece-se colocar-se ao nível da generalidade das sociedades ocidentais. Qualquer professor português considerará as cenas e personagens estranhamente familiares. Basta referir que um dos problemas que atravessa o filme, o choque étnico, está cada vez mais presente nas nossas escolas, através do mesmo tipo de conflitos. É claro que a dimensão não é a mesma, mas a sua natureza é a mesma. Mas há um outro aspecto a realçar: os efeitos transversais da cultura pop. Na verdade, a cultura pop que nasceu e se afirmou ao longo dos anos foi impregnando mentalidades, ao mesmo tempo que se transformou num grande negócio. Música e roupa e outros gadgets (na verdade tudo tende a reduzir-se à condição de gadget...) transformaram-se num extraordinário negócio, mas sustentam-se em atitudes, comportamentos e modos de pensar. O individualismo agressivo, o hedonismo compulsivo e a rejeição da autoridade são o resultado à vista. Até que ponto a eficácia da escola é compatível com isto? Os jovens do filme, assim como uma boa parte dos jovens das nossas escolas enquadram-se nestes padrões. A escola não tem podido adaptar-se a esta situação sem, em última análise, pôr em causa a essência da sua função. Parece cada vez mais pertinente voltar a dotar a escola de princípios efectivos de valorização de autoridade e de esforço individual e assumi-los sem complexos e ambiguidades. Este será, em todo o caso, apenas o ponto de partida para a recuperação do seu lugar social e pressupõe, claro está, decisões políticas de fundo.
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Blog A turma


Laurent Cantet - Entre les murs [A turma] (Trailer)

sexta-feira, novembro 14, 2008

Tiro ao alvo (21)

A guerra dos professores (II)
É espantoso o consenso entre os professores. Por muitas razões - umas boas, outras más - velhos ou novos, do quadro ou contratados, estão quase todos em pé de guerra. Isto só diz da ainda mais espantosa incapacidade do Ministério em fazer aliados entre os professores. Mandava a prudência que se procurasse aliados - seria inteligente. Nem seria, sequer, difícil. É claro que tal pressupunha alguma capacidade de diálogo e flexibilidade, mas, optou-se sempre pelo extremismo. Na hora da verdade, o Ministério só contará com os conselhos executivos. Entretanto fomentou uma guerra absurda. Basta reflectir sobre isto: que política educativa se pode sustentar em professores menorizados e desautorizados? Dizem que este sistema de avaliação os credibilizará. Como pode ser isso feito por um faz-de-conta burocrático destinado a medrar no pântano da promiscuidade inter pares e inspirado em escolástica tecnocrática?
O que é mais provável que suceda? Que os professores sejam chamados a introduzir numa aplicação informática os seus objectivos individuais até uma data-limite. Quem não o fizer será avisado que ficará fora da lei. Cada um, evidentemente, sentir-se-á tentado a fazê-lo na privacidade, ruminando muitas possibilidades desagradáveis para si, se não obedecer. Algumas delas estarão sempre garantidas: aqueles poucos que seguramente obedecerão, passarão à frente, com implicações directas na graduação. Na melhor das hipóteses, o Ministério anunciará que este ano não haverá consequências para os desobedientes; insistirá na tecla da simplificação. Mas, na hora H cada um ficará com uma decisão estritamente pessoal nas mãos. E o processo formalmente avançará sempre, nem que seja com 1% de avaliados (mas serão sempre, em qualquer circunstância, bem mais...).

Tiro ao alvo (20)

A guerra dos professores (I)
Parece que a equipa ministerial está entregue a uma cruzada redentora para salvar o ensino. Desgraçadamente, tudo indica que se tomam a sério num empenho transcendente, missionário... Pertencem, portanto, a uma perigosa espécie: os redentores! Podiam ser apenas uns cínicos tecnocratas, conjunturalmente enquadrados nos interesses de um aparelho partidário. Mas, se assim fosse, haveria nexos de racionalidade que poderiam ser aproveitados para reparar estragos a tempo. Ora, tal não se vislumbra. É certo que, na senda de Robespierre, gente desta acaba no cadafalso ou, pelo menos, justamente difamada para a posteridade; mas, no interim do seu efémero poder, causam estragos. Não tanto por chatearem os profs até ao tutano - verdade se diga que uma parte deles merece ser chateada e é ver muito da hiperbólica prosa de queixas para o comprovar. Mas, os estragos mais devastadores derivam do facto de que o seu triunfo pode significar o triunfo...
- do pior que há nessa coisa chamada "ciências da educação", que de ciência tem pouco e se traduz, as mais das vezes, por uma tecnocracia construída a partir de abstracções vendidas em mestrados de moda;
- de uma concepção da escola rousseauniana - uma sopa onde se dilui qualquer vestígio de autoridade, respeito e responsabilidade.
A verdade é que a desordem das nossas escolas, ainda assim, assegurava bolsas, onde se podia ensinar e havia quem o fizesse com tranquilidade. Mas, o que agora se vive prenuncia a redução da escola a armazém pop de tempos livres, segundo a vulgata politicamente correcta. Alguns pais ociosos e pretensiosos terão aí livre entrada para lançar foguetório de disparate e distribuir alguma bordoada por profs. Estes, aliás, tenderão a rastejar como técnicos tendencialmente ATL, ou seja, como divulgadores de itens de virtudes de cidadania e animadores de sala e de pátio. A intriga será larvar, enfeitada aqui e ali por cenas canalhas. Triturados os seus neurónios por grelhas e desdobramentos de objectivos até à paranóia, serão premiados aqueles mais habilidosos em construir "aldeias Potenkine" no universo vivaz do portfolio e, por que não, serão também premiados alguns ascetas prontos para sacerdócios masoquistas. Imperará o optimismo e voluntarismo de fachada, assentes nas estatísticas do supérfluo. Dias não distantes chegarão em que se proclamarão todos os sucessos educativos possíveis, em cerimónias ilustradas por powerpoints transbordantes de gráficos comparativos...
Entrementes, a transição actual serve fins políticos de assessores que intuem, não sem pertinência, que a inveja - atributo fatal de um povo que tem nos seus genes a herança de famintos camponeses - compensará eleitoralmente a sova sobre os profs. Estes vivem agora um pesadelo, que uma situação longamente acomodada pelo zelo sindicalista e incompetência governativa (com destaque para os governos do PS!) não deixava entrever. Apopléticos, e-mailizam-se convulsivamente, uivam moções sobre moções e desfilam em hipermanifs desesperadas.
Talvez fosse útil reflectir e elevar a contestação ao nível onde se situa o processo mais global do desastre educativo. A própria eficácia da luta teria a ganhar com isso. Com efeito, é imperioso elevar o nível dos agravos e ser inteligente, se se quiser ter a mínima hipótese de não perder em toda a linha. Desde logo, reconheçamos que o que existia antes era uma treta e que é necessário que exista, mesmo, um mecanismo de efectivo reconhecimento do mérito, mas sem que pareça conversa fiada. Denunciemos os efectivos defeitos deste sistema, sem exageros teatrais. Centremos mais as preocupações na qualidade de ensino, sem que pareça ser slogan. Apresentem-se propostas alternativas, mas sérias! Ao mesmo tempo, ponham-se de lado ilusões sobre uma luta que só os ingénuos podem imaginar que se ganhe à força de moção... Imaginação é preciso! E, sobretudo, organização!


domingo, março 09, 2008

Tiro ao alvo (19)

Em Tiro ao alvo (10), na sequência de apreciações muito mais positivas do que negativas acerca da política da educação, rematei da seguinte forma: "Em todo o caso, o ministério navega no rumo certo. Que a nave não naufrague entre as violentas tempestades que se avizinham!". Pois devo agora dizer que o rumo não se tornou incerto, mas, entretanto, tornou-se claro que o porto de chegada não é o melhor... E, dada a obstinação do timoneiro, começo a desejar o... naufrágio.
O modelo de gestão parece positivo. É desejável que a gestão das escolas deixe de estar cativa dos interesses corporativos dos professores. Contudo, noutras áreas sensíveis e decisivas as opções têm sido más. É assim com o modelo de avaliação de desempenho e, de um modo geral, com parte da avassaladora produção legislativa (alguém aplicou-lhe a designação de diarreia legislativa) em que destaco o modo como foi criado o corpo de professores titulares e, mais recentemente, o estatuto do aluno. São regulamentações complexas, por vezes contraditórias e ambíguas, lavrando injustiças a eito e criando problemas desnecessários. Descontadas as compreensíveis necessidades de aliviar encargos salariais, se algo parece claro, é, efectivamente, a pretensão de fazer grandes mudanças em pouco tempo. É indispensável introduzir grandes mudanças no nosso sistema de ensino. Porém, não é atinado querer mudar em tantos domínios, ao mesmo tempo, de modo tão radical e, o que é pior, em certos domínios cruciais, no sentido errado. Sucede que esta equipa não quer, simplesmente, pôr as coisas melhores, como fez com medidas tomadas no início e que, por exemplo, reduziram drasticamente os furos e o absentismo. Deveria prosseguir mais moderadamente, salvaguardando o que de bom tem feito, garantindo mais segurança e eficácia no que falta fazer e corrigindo erros. Mas parece que não quer ouvir nada nem ninguém. Assim, conclui-se, insisto, que não quer, simplesmente, pôr as coisas melhores. Quer ir, muito mais longe. Quer criar um mundo novo. Diria que parece estar acometida de um espírito messiânico, de tipo jacobino ou bolchevique... É inquietante, pois os redentores são perigosos, ainda mais num território tão sensível como o da educação. Apesar dos propósitos da senhora ministra, apesar do muito de positivo que já foi feito, parece que na equipa ministerial impera um espírito de cruzada, provavelmente inspirado em alguns credos mais ortodoxos das ciências da educação. Justifica-se esta inquietação, pois muito do que se vai revelando é próprio das teorias obcecadas por objectivos e competências, que têm ajudado a levar a educação ocidental ao descrédito. Já agora, diga-se que, curiosamente, este é o mesmo continente ideológico da velha esquerda que formou o nosso sindicalismo... A base são concepções rousseaunianas, onde a escola é vista como um lugar mais de prazer do que de esforço e relativiza-se a disciplina.
No que diz respeito à avaliação de desempenho, é um modelo orientado para uma realidade de papel traduzível em estatísticas. Objectivamente, é uma forma de obter indicadores a partir de estereótipos beahaviouristas, que são extrapolados e magnificados. Contudo, num ambiente inopinadamente competitivo, será também um infernozinho burocrático, assente em facilitismo para os alunos e só gratificante para os professores mais jeitosos em compôr a sua "aldeia Potemkine". Para aprimorar a coisa, em muitas escolas, a avaliação inter pares adiciona desconfianças, promiscuidades e invejas próprias de relações pessoais que há muito descambaram do plano profissional. Ou seja, burocracia e intriga. É certo que alguma melhoria resultará na prática lectiva, mas o processo será demasiado desgastante. Ou seja, a relação custos/benefícios será má. E, afinal, a alternativa seria simples: deixar no futuro director todas as competências avaliadoras, que seriam expeditamente tramitadas ao fim de três anos. Sem burocracias e esforços inúteis! Haveria ainda outras alternativas, como preparar um corpo especializado de inspectores. Mas escolheu-se um modelo burocrático, fomentador de intriga, amigo de zelotas das grelhas, de jardineiros de portfolios e encenadores habilidosos.
Nestas circunstâncias passo para o outro lado, onde agora, ironicamente, surgem propostas alternativas válidas, geradoras de menos injustiças e onde, até, os sindicatos já fazem um implícito reconhecimento de que o que existia antes era insustentável.

sábado, maio 12, 2007

Tiro ao Alvo (18)

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Margaret Thatcher
Numa altura em que se cantam loas a Tony Blair, convém não ignorar que se alguém terá lugar reservado na história não será tanto este arauto do que Vasco Pulido Valente designa como "política do sentimento", mas antes a Dama de ferro. É certo que a política de Blair teve aspectos muito positivos, mas, essencialmente, definidos em função do legado thatcheriano. Em boa verdade, manteve tal legado e corrigiu alguns dos seus excessos. De forma pragmática dir-se-ia que foi magnífico e foi, com efeito. Contudo, a questão da coerência ideológica esvaiu-se no que pode ser considerado oportunismo. Alguns esforçam-se por embalar tal política nos bonitos adereços de uma "nova esquerda", só que esses esforços para dar respeitabilidade ideológica têm que inevitavelmente ter em conta a tendência sentimental-populista que parece confirmar um oportunismo tacticista. No mesmo modo, aliás, embora em sentido diferente e com resultados de popularidade negativos, se poderá entender o inconcional alinhamento na "aventura iraquiana"...
Em contrapartida, pouco de tacticista e muito de estratégico existiu no consulado da Dama de ferro. Havia ideologia e coerência política na sua aplicação, para o bem e para o mal... Dizem-nos as estatísticas que os seus efeitos, se não foram imediatamente mais positivos que negativos, acabaram idiscutivelmente por o ser a médio prazo. A decadência britânica, tão patente nos finais de 70, inverteu-se de tal modo que é hoje aquela, entre as maiores potências europeias (RU, FR, ALE, ITA, ESP), que tem uma economia mais dinâmica e o melhor nível de vida. Poucos políticos teriam a coragem de fazer o que a Dama de ferro fez, ainda por cima sabendo que os resultados positivos só poderiam ser apreciados muito para além dos cada vez mais apertados ciclos eleitorais. Uma boa dose de liberalismo, sabiamente administrada consoante as circunstâncias é sempre a melhor via para a riqueza e a verdadeira justiça social.

segunda-feira, março 26, 2007

Tiro ao Alvo (17)

Salazar e os grandes portugueses
Acabou o programa Os grandes portugueses, da RTP. Como se esperava ganhou Salazar. Não há que exagerar, mas tampouco há que minimizar o significado do desenlace. Reflecte dois factores: tendência natural para um certo revisionismo favorecido pelo distanciamento temporal; protesto contra a situação actual. Seja como for, é significativo que se amplifique a onda de preplexidade e indignação... Estremecem as esquerdas e, em particular, as suas elites intelectuais. Na verdade, grande parte das esquerdas é credora de uma matriz jacobina (ampliada no caso dos comunistas e extrema-esquerda). É intolerante e tem em relação à realidade dificuldade para a entender. Pretende resolver a interpretação da teimosa realidade, aplicando os seus velhos esquemas teóricos.
Vejamos serenamente esta questão. Foi ou não Salazar um grande português? Evidentemente que foi. Resolver a questão do que é ser um "grande português" endereça para valores nacionais. Pode-se concordar ou discordar dos valores do ditador, mas ninguém, de boa fé, pode ignorar que os valores nacionalistas ocupavam o centro do seu ideário. A sua acção política foi, pelo menos até à década de 50, benéfica para o posicionamento de Portugal no mundo, ainda por cima, num período tremendo, marcado pela Guerra Civil de Espanha e pela II Guerra Mundial. Com habilidade, jogando um complicado jogo de equilíbrios, num cenário de fundo explosivo, conseguiu poupar directamente o país às convulsões europeias, ainda por cima, sem perdas. Só isto (acaso foi pouco?) seria suficiente para o colocar numa galeria de ilustres da nossa história. É claro que era um ditador (que não fascista...), mas nos anos trinta, tal não só não era anacrónico, como natural. Foi até, diriamos, comparativamente com as demais ditaduras (a começar com a da Espanha franquista), um ditadura branda. O estado nunca assumiu um carácter totalitário e a repressão foi, geralmente, selectiva, incidindo sobre os comunistas. Estes, é necessário não esquecer, apesar do seu heroísmo, sempre tiveram um projecto político que desemboca, esse sim, em ditadura feroz... Porém, os fundamentos do pensamento salazarista não consistiam só no nacionalismo e no anti-comunismo. A argamassa era o conservadorismo católico. Tal contribuiu para moderar efectivamente as tendências extremistas. Depois, o que é fundamental, impôs um modelo sóbrio de governação, assente no espírito de serviço público, que teve, durante muito tempo, importantes benefícios internos, traduzidos em estabilidade, segurança e fiabilidade das instituições. Com todos os seus defeitos e qualidades o salazarismo sintonizava com a realidade social e mental de um país periférico e rural; emanava naturalmente de um Portugal profundo...
É claro que à medida que o tempo foi passando o pensamento de Salazar passou a ter consequências muito mais
negativas que positivas. Nos anos 60 era já, sob todos os pontos de vista, um pesado anacronismo que, entre outros aspectos conduziu o país a um beco sem saída na questão colonial. E sob o ponto de vista económico perderam-se muitas oportunidades. O necessário impulso democratizador jamais foi encarado, é claro. Faltou um mínimo de realismo. O que fora adequado até inícios dos anos 50 tornou-se um lastro sem solução de continuidade. A força ideológica do salazarismo tinha em si uma tremenda fragilidade - a rigidez dos seus princípios conduziu à inevitável auto-destruição num mundo em grande mudança. O 25 de Abril acabou por ser o resultado último desse desajustamento. Contudo, o processo democratizador só alcançará verdadeiramente a maturidade quando a nossa democracia souber encarar Salazar e o salazarismo no seu contexto; quando, enfim, tiver capacidade de valorizar o que fez de positivo e, inclusivamente, capacidade de incorporar alguns valores conservadores. Para além do seu carácter de conjuntural protesto, este concurso televisivo pode ser uma bofetada na cegueira dogmática das esquerdas sem remédio que desbloqueie um pouco o caminho nesse sentido.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Tiro ao Alvo (16)

O livro de Carolina

Em boa verdade, as revelações de Carolina não acrescentam nada ao que já se sabia. Há muitas calúnias, mentiras, meias verdades e exageros. Mas há, certamente, algumas realidades que não se podem, nem devem ignorar, sobretudo pelos que, como eu, são orgulhosos da sua condição portista. Torna-se cada vez mais visível que Jorge Nuno Pinto da Costa foi decisivo e indispensável na ascensão e consolidação do FCP, mas perdeu brilho nos últimos anos. Sabe-se que nunca foi, nem pretendeu ser, um modelo de virtudes. Para os adeptos, o que sempre interessou foram as suas capacidades de líderança, cujos resultados transcenderam tudo o que se poderia imaginar e que jamais algum dirigente desportivo conseguiu alcançar. Todos os portistas, lhe estarão eternamente gratos. Tem um lugar à parte na história do clube. Contudo, não há personagens isentos de defeitos e Jorge Nuno Pinto da Costa é uma moeda de duas faces. Na menos brilhante inserem-se algumas práticas de "não olhar a meios para atingir fins". Acredito que entre meados de 80 e meados de 90 tivesse havido algum manejo de bastidores, em que se tentou influenciar a arbitragem e que isso deu alguns frutos, embora, nem pouco mais ou menos aqueles que, em típico delírio de inveja, foram e são esgrimidos... Nesse tempos, e dadas as circunstâncias, era compreensível. O futebol português era um mundo à margem. Entre influências institucionais vindas de um longo passado e pequenos jeitos para amigos, que sempre caracterizaram uma sociedade com uma matriz mental de manhas e expedientes camponeses, quem renunciasse a essas vias seria um tolo. Nesse contexto, tais manejos eram compreensíveis. Será necessário um pesado facciosismo ou, mesmo, alguma má-fé para não reconhecer que os outros só não o fizeram com eficácia, não por renegarem os métodos, mas por incompetência. O essencial é que, numa estratégia que incorporou tais práticas, se construiu a base para uma boa equipa de futebol, dentro das quatro linhas. A sua legitimidade não foi menor do que aquela que havia na base de amparo institucional para o Sporting dos 5 Violinos ou o Benfica de Eusébio. Seja como for, insisto, construiu-se a estrutura para o melhor futebol efectivamente jogado em Portugal e com projecção internacional.
Os tempos mudaram, evoluíram. Descontado o oportunismo das frustradas legiões de adeptos sportinguistas e benfiquistas, as exigências éticas foram crescendo. A persistência de tais práticas, pela força da rotina e do vício, tornou-se um inconveniente excesso de zelo. Nada trouxe de bom, sob nenhum ponto de vista, desde há uma década para cá. Nos últimos anos, entre os três grandes, o FCP é o relativamente menos beneficiado pelas arbitragens. Temerosos por serem associados a tais práticas, os árbitros, in dubio, decidem contra as cores azuis e brancas. Contudo, Jorge Nuno Pinto da Costa tem dificuldade em exercer de timoneiro sem esse modus operandi e, além do mais, certos males de um ego desmedido têm vindo a agravar-se. O livro de Carolina é o resultado destes dois factores.
Seria absurdo imaginar que a nação benfiquista seguisse o velho princípio imperial: "Roma não paga a traidores". Pelo contrário, esse universo plebeu recompensa, com entusiasmo pueril, os traidores. De certa fora, é a metáfora do país que temos, acrisolado na inveja. Imaginam o seu rival com depositário de todos os defeitos mafiosos, porque não aguentam a evidência do mérito das suas glórias. Afadigam-se em encontrar a chave do segredo, exclusivamente nos terrenos mais pantanosos, mas as tentativas de encontrar um padrinho superior têm sido grotescas e algumas, como o fenómeno Vale e Azevedo, trouxeram vexames inomináveis.
Pelo seu lado, a aristocracia de Alvalade insiste em proclamar as suas virtudes num processo que desde há muito consolidou uma cultura de derrota, servida por um exemplar espírito calimero.
Dois tipos distintos de medíocridade instalaram-se e criaram raízes na Segunda Circular. Na Invicta, criadas as indispensáveis estruturas que, em devido tempo, permitiram as condições para as vitórias internas, instalou-se um futebol competitivo e susceptível de proporcionar qualidade dentro das quatro linhas, conquistando glórias na Europa e no mundo. Para os portistas, evidentemente, há que preservar este estado de coisas, mas para os mais lúcidos, como Miguel Sousa Tavares, chegou a hora de dizer que, para tal, talvez seja preciso que o tempo de Jorge Nuno Pinto da Costa acabe. Entre os portistas que se discuta serenamente tal questão. Quanto a outros, pois que continuem a pagar a traidores. Vão longe!

sábado, dezembro 09, 2006

Tiro ao Alvo (15)

Stephen Frears - The Queen (2006)

Vivemos tempos democráticos, em que o povo é servido à medida dos seus gostos por uma indústria mediática. Esta esmera-se em dar-lhe ídolos e sensações fortes. A Princesa Diana foi um desses ídolos. A sua morte foi uma oportunidade para um prato bem servido de sensações fortes. Este filme aborda o modo como a família real britânica, e muito em especial, a rainha, lidaram com as vagas altas dessa indecorosa exploração. Oferece ocasião para reflexões em diferentes sentidos: não só sobre a histeria sensacionalista do vigente império mediático, mas também sobre a natureza e o carácter da instituição monárquica e sobre o que efectivamente vale a democracia actual, por exemplo. Quem é avesso ao reconhecimento da valia das instituições monárquicas poderá ter aqui uma lição - no mínimo dos mínimos, pode ser um contraponto à vulgaridade imperante, ou seja esta mistela de plebeísmo e individualismo hedonista servida em doses maciças de superficialidade e falta de valores substantivos. Mas, não é difícil ir mais longe e perceber como a instituição monárquica pode deter um valor simbólico agregador dos valores históricos identitários da comunidade.
Fazer um filme como este não foi tarefa fácil. Pôr em cena personagens vivos que permanecem na ribalta, ainda por cima da talha da própria rainha ou do primeiro-ministro Tony Blair, requer coragem e suma habilidade. Stephen Frears sai-se bem da façanha. Se para tal tem o decisivo contributo da actriz Helen Mirren (candidata ao óscar de melhor actriz), na verdade também não deixa de ter uma boa ajuda por parte de Michael Sheen, como Tony Blair. Lidar com um argumento como o que serve de base a este filme é, logo à partida, um exercício de atrevimento que define a capacidade de um realizador.

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Info IMDb

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Tiro ao Alvo (14)

Vacas e automóveis
Li há alguns dias num jornal uma curiosa notícia, cujo sentido pode ser traduzido, sem grande exagero, da seguinte forma expressiva: Imagine-se um cenário campestre, bucólico, composto por vacas a pastar num verde prado. Imagine-se agora a hedionda IC19 num início de manhã de dia útil, algures entre Cacém e Queluz, atascada num costumeiro engarrafamento automóvel. Pois fique-se sabendo, que a primeira imagem corresponderá, provavelmente, a uma situação mais danosa para o chamado equilíbrio do meio ambiente e um contributo mais efectivo para o aquecimento global do planeta! Efectivamente, a libertação de metano produzida pelo gado, e particularmente por aquele que é mais dado a manifestações aerofágicas, como parece ser o caso do gado vacum, constitui uma ameaça maior que o CO2 libertado pelos tubos de escape. Assim, talvez se justifique mais um acto de contrição no momento em que se coma mais um iogurte do que no momento em que se gire a chave de ignição para arrancar com o automóvel… Parece que a fonte é uma revista científica e, parece, inclusivamente, que para os organismos internacionais dedicados ao estudo deste tipo de problemas, isto não é propriamente um segredo…. O que se passa é que por razões de ordem política e pela histeria sensacionalista em que os media vivem, constituiu-se um poderoso filtro, que não só selecciona a informação em função de uma percepção dominante, como, de algum modo, induz opções políticas (cada vez mais cativas da popularidade mediática) que forçam a adopção de prioridades erradas de investigação junto da comunidade científica. Algo, enfim, que o dinamarquês Bjørn Lomborg tem vindo a denunciar, em particular na sua obra The Skeptical Environmentalist (2001).
Não consegui encontrar on-line o artigo em questão, o qual, julgo, ter lido no Público. Contudo, uma simples pesquisa no Google conduziu-me a este artigo, Vacas contaminantes, o qual aborda o mesmo problema.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Tiro ao alvo (13)

Vasco Pulido Valente: A vida é um funil
São sempre saudáveis os banhos de lucidez que Vasco Pulido Valente proporciona aos seus leitores (neste caso, ouvintes):


Extracto da entrevista de Vasco Pulido Valente a Pessoal e Transmissível, de Carlos Vaz Marques. (TSF, 8 de Novembro de 2006).
Informação e ficheiro audio retirados de A Origem das Espécies, de Francisco José Viegas.



quarta-feira, julho 19, 2006

Tiro ao Alvo (11)

Israel vs Hezbollah
Acabou o Mundial de Futebol. Parece que os homens do Hezbollah intercalavam as suas orações com um empenhado seguimento das gestas futebolísticas em curso nos relvados alemães. Nem a precoce eliminação da selecção dos seus líderes espirituais, o Irão, fez diminuir demasiado tal empenho. Chega a final, a cabeçada de Zidane, a taça para a squadra azzurra. Acaba o Mundial. Subitamente desapossados destes entretenimentos, resolvem, talvez para matar o tédio, proceder a alguma bravata solidária com os seus amigos do Hamas, os quais, aliás, estiveram sempre menos atentos ao Mundial...
Enfim, o assunto é desgraçadamente mais sério para poder sustentar frivolidades. A verdade é que estes terroristas (não esquecer a sua essência!) praticaram actos de guerra contra um país de dimensões mínimas e acossado desde a sua origem, cuja viabilidade só é possível com a disposição incondicional e imediata para responder a desafios desta natureza. Há quem refira a soberania de um país, o Líbano, a existência de um governo que, aliás, estava agora em processo de se libertar da degradante tutela síria. Mas que raio de país soberano é esse que permite e ampara a existência de um autêntico estado independente dentro do seu seio, cuja essência é, precisamente, constituir-se em ameaça à existência de um estado vizinho? O vigor da resposta israelita é resposta legítima a actos de guerra e é, sobretudo, condição essencial para fazer valer o seu direito à existência através do exercício do elementar da auto-defesa.

domingo, maio 28, 2006

Tiro ao Alvo (10)

Estatuto da Carreira Docente
A ministra da educação tem-se tornado o alvo preferido de muitos professores pelas medidas que desde há um ano para cá têm vindo a ser tomadas. Entre estas destacam-se as tão vilipendiadas “aulas de substituição” – algo que não passa de uma obrigação elementar já há anos consagrada pela lei, prática rotineira noutros países e, inclusivamente, em algumas das nossas escolas. Contudo, para um observador atento, tornava-se evidente que isto era apenas o início de um duro trajecto correctivo que decorria da necessidade de se atalhar em dois domínios: o desastre educativo e o desastre das finanças públicas. Muitas novidades teriam de chegar e, entre elas, avultaria o novo estatuto da carreira docente, que seria a pedra de toque decisiva. O anúncio agora efectuado parece confirmá-lo.
A generalidade dos professores portugueses vive numa inusitada situação de relativos privilégios. É indispensável que estes deixem de contemplar o umbigo dos "direitos adquiridos" e encarem a nova realidade. Se assim não for, será pior para todos. Mesmo numa lógica de interesses corporativos há muito mais a perder para além do que parece já certo, com maior ou menor espernear politico-sindicalmente induzido... Uma progessão minimamente suada e o rastreio de vocações erradas são trivialidades em qualquer profissão digna desse nome. Estabelecer uma mínima diferenciação entre os melhores e os demais, também. Cercear o acesso ao topo através de uma espécie de numerus clausus também se entende, atendendo ao estado das finanças. Vai certamente doer, mas não há alternativa.
Contudo, também não se deve deixar de sublinhar que os privilégios que têm bafejado os professores são comuns à generalidade dos cargos superiores da “função pública”, havendo outras situações mais sintomáticas. O sindicalismo arrancou sem grande esforço
esses privilégios e ainda com menor esforço blindou-os. O oportunismo e incompetência de sucessivos governos pactuou com eles e consagrou-os. São privilégios quantificáveis e não quantificáveis – estes últimos passam pelo clima de relação pouco exigente que se estabelece entre colegas, (o “porreirismo”). O que se anuncia é a intenção de fazer entrar os professores numa situação de normalidade desconhecida. Só que, atenção, o mesmo, provavelmente, será necessário fazer com professores universitários, militares de carreira, médicos... É o inevitável caminho para evitar a bancarrota. No caso dos professores é também o caminho para tentar minimizar o desastre educacional. Contudo, em relação a este desastre, é importante que se tenha em conta que não basta uma maior exigência profissional - é preciso também inverter política e filosofia educativas, o que é complicado, pois os relativismos culturais e visões afins, que tantos danos têm causado à educação, pontificam ainda no mundo em que estamos inseridos. Precisamente, a área política de onde emana o governo é das que mais têm cultivado tais visões... Há ainda um outro aspecto: intenções, por mais bem intencionadas que sejam, não chegam. Tem-se observado na prática deste ministério um certo despiste e voluntarismo que, em vários domínios, têm criado novos problemas. É espantoso que, aparentemente, não se tenha ainda percebido que o essencial passa pela gestão escolar, a qual está muito longe de ter meios e condições de legitimidade para ser o braço executor das orientações ministeriais. Em todo o caso, o ministério navega no rumo certo. Que a nave não naufrague entre as violentas tempestades que se avizinham!

sexta-feira, março 10, 2006

Tiro ao Alvo (9)

Choderlos de Laclos - As Ligações Perigosas (Les Liaisons Dangereuses) 1990 (1782)

Este foi um caso em que o cinema me conduziu à leitura. Em finais dos anos 80 vi dois filmes construídos sobre a mesma história, a qual corresponde a um romance de finais do século XVIII. Já não sei qual dos dois vi primeiro, se Ligações Perigosas ou Valmont. Gostei bastante de ambos, se bem que o trio Glenn Close, John Malkovich, Michelle Pfeiffer seja sublime e se avantaje sobre o correspondente trio Colin Firth, Annette Bening, Meg Tilly. A qualidade e tipo de realização (Stephen Frears vs Milos Forman) equivalem-se. Mas, o que me seduziu foi, acima de tudo, o tipo de história e a sua ambientação.
Não há nada mais cultural do que o sexo. Não se pode ignorar nunca o rebarbativo lugar-comum de que o amor significa mais frequentemente infelicidade do que o seu contrário. Este facto está consagrado pelo bom-senso, pese embora a tola publicidade hedonista triunfante e é, enfim, o reconhecimento da natureza eminentemente cultural do amor. O que de melhor e pior há na espécie humana aflora neste território implacável. Pura, vã, ridícula ilusão a de se pretender que a "educação sexual" pode ter algum lugar na evolução da espécie que não o de ser mais um elemento para a desagregação de valores da civilização. Mas se se pretende alguma educação formal neste domínio, pois há que dizer que os "manuais" serão de um tipo radicalmente distinto do que o polticamente correcto imagina... Com efeito, histórias de perversidade como a que serve de sustento a estes dois filmes, demonstram-nos que amor e sexo são domínios de cultura (sentido antropológico) e carácter. Mulheres e homens combatem com as suas armas cruéis e aqueles que não têm armas ou talentos nestes combates arriscam-se a ser dizimados. Ora, as convenções sociais, com toda a sua estimável canga moralista, não existem por acaso; existem (ou existiam...), sobretudo, para proteger os mais fracos e, assim, garantir coesão na vida social. Foi precisamente em certos momentos e lugares (os ambientes da aristocracia francesa do século XVIII, por exemplo) onde tais regras e convenções entraram em crise, que a sociedade começou a desagregar-se (O Marquês de Sade é um prelúdio da Revolução Francesa...).
Não admira que ao longo do século XIX o romance de Laclos tivesse sido censurado e, pode-se dizer, considerado maldito. Os costumes burgueses não poderiam ter outra atitude. Na verdade, ele põe a nu mecanismos de perversidade de que a espécie humana é capaz - enfim, o que a sociedade sabe, mas que convencionou fazer de conta que não sabe. Transpira sageza por todos os poros e é uma cabal demonstração literária de como a espécie fornica com os neurónios. Além disso, a sua leitura, através de uma original forma epistolar, revela-se um subtil jogo psicológico enriquecido por pormenores a que o cinema não pode atender.

Choderlos de Laclos - As Ligações Perigosas (1782)
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Página Web sobre Choderlos de Laclos

Stephen Frears - Dangerous Liaisons (1988)
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Info IMDB
Dangerous Liaisons

Milos Forman - Valmont (1989)
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Info IMDB Valmont

sábado, fevereiro 25, 2006

Tiro ao Alvo (8)


Livro: Harold Bloom - El Canon Occidental (The Western Canon) 1997 (1994)
Harold Bloom arremete contra o relativismo cultural e algumas outras "vacas sagradas" do pensamento politicamente correcto. Confeccionar uma lista de referência para a história da literatura universal e, desde logo, assumir com clareza que tal lista é, obviamente, ocidental é "provocador, heterodoxo, contracorrente" - são estes os termos que constam da apresentação, na contra-capa da edição espanhola (há tradução portuguesa?).
Eis os nomes mais destacados da lista canónica:
Shakespeare (o centro do cânone); Dante; Geoffrey Chaucer; Cervantes; Montaigne; Milton; Goethe; William Wordsworth; Jane Austen; Walt Whitman; Emily Dickinson; Charles Dickens; George Eliot; Leão Tolstoi; Henrik Ibsen; Marcel Proust; James Joyce; Virginia Woolf; Franz Kafka; Jorge Luís Borges; Pablo Neruda; Fernando Pessoa; Samuel Beckett.
É uma obra de um erudito para o grande público. Indispensável.
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Harold Bloom in Stanford PLHA

domingo, janeiro 22, 2006

Tiro ao Alvo (7)


Cavaco Silva ganhou!
...E por goleada, já que foi à primeira volta! À primeira! A grande virtude deste homem é que é uma pessoa honesta, sensata e equilibrada - alheio a ideologias programáticas. Vade retro toda a esquerda facciosa que nos conduziu a este triste estado e que agora ressurgiu, alardeando precisamente alguns dos seus mais notórios defeitos. Que nos conduziu, pois foi a esquerda que moldou o regime que temos e balizou as suas regras. A sua cosmovisão tornou-se tão influente na nossa sociedade que nunca deixou de afectar, por exemplo, a política levada a cabo, inclusivamente, pelos governos do PSD, incluindo os liderados por Cavaco Silva. É um óptimo sinal ver, pela primeira vez após o 25 de Abril, a esquerda arredada desse lugar simbólico que é a Presidência da República.
Mas se se evitou o pior, não quer dizer, evidentemente, que esta vitória tenha efeitos miraculosos. Nem sequer, como se sabe, a Presidência é um lugar com meios e condições para uma intervenção política ao nível decisivo que os nossos problemas exigem. Além de que Cavaco Silva, pese as suas qualidades, não pode ser o homem providencial. Em todo o caso, estou feliz... por Portugal!

sábado, dezembro 31, 2005

Tiro ao alvo (6)

Excesso de zelo
Espanha entra em 2006 começando a aplicar uma das legislações mais restritivas da Europa quanto ao tabaco. Que ironia! A mesma Espanha que esteve, no ano que ora termina, na vanguarda da aprovação dessa coisa indescritível que é o "casamento" entre homossexuais, vai agora situar-se na vanguarda de um certo puritanismo...
Eu não fumo e nunca fumei. Contudo, tal ocorreu de forma natural, sem que jamais desenvolvesse preconceitos quanto ao tabagismo. Em todo o caso, estou ciente que o tabaco pode fazer bastante mal, como muitas outras coisas, aliás (em rigor, se o zelo alastra com coerência, teremos os cenários do nosso quotidiano povoados de advertências "x, y ou z... mata!"). Seja como for, considero benéfico o processo de crescente consciencialização quanto aos malefícios do tabaco. Acho que é importante difcultar o acesso ao tabaco por parte dos menores e que devem existir campanhas de consciencialização. Tampouco me repugnam as alcavalas sobre o tabaco, desde que revertam estritamente para gastos com os sistemas de saúde. Contudo, entendo que neste processo se têm vindo a cometer exageros que denotam um execrável espírito puritano de desconfiança, senão ódio, aos prazeres da vida.
Para os fumadores, o tabaco é fonte de prazer e há que respeitar esse prazer! Além disso, o tabaco tem história e cultura atrás de si. Vastíssima e rica, deve-se dizer. Reduzi-lo à condição de mera droga é ignorância. Não sei se, eventualmente, em prol de mais algum zelo de "politicamente correcto", o governo de Zapatero se propõe rever a história de Espanha e ocultar um dos seus feitos: o papel destacado que o Império Espanhol teve na divulgação e promoção do tabaco. Aguardemos, já que o zapaterismo parece não conhecer limites de elementar bom-senso... Mas, queira-se ou não, o tabaco tem sido, efectivamente, fonte e pretexto de arte e cultura e tornou-se um signo de civilização, desde coisas quase transcendentes, como estar associado à inspiração artística, até coisas vulgares, como, por exemplo, ter sido um
pretexto para a melhor e mais criativa publicidade. Tem havido muita insensibilidade para isto. Temos um exemplo na infantil norma comunitária que obriga a pespegar tarjas macabras nos maços. Estropeou algo que merece não ser desconsiderado: o design dos maços de tabaco. É caso para nos inquietarmos sobre quanto tempo mais permanecerão imunes as gravuras impressas nas cintas dos charutos puros havanos - elegantes e artísticos elementos identificadores das diferentes marcas, repletas de tradição e pâtine. O certo, é que, por agora, os maços de tabaco já foram vitimados. Apreciá-los, livres de atropelos à sua estética, é já algo que figura no baú das recordações... Na véspera do dia em que a pele do touro vai sofrer uma esfrega puritana, aqui fica, no magnífico design de um maço Camel, uma singela homenagem aos fumadores espanhóis - enfim, não faltará muito para que sejam obrigados a passar à clandestinidade...

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Tiro ao Alvo (5)

Livro: Jacques Barzun - Da Alvorada à Decadência: De 1500 à actualidade. 500 Anos de Vida Cultural do Ocidente (2000)
Ando sempre com um livro entre mãos. Pode ser um romance. Pode ser algum compêndio de estatísticas sociais ou futebolísticas... Mas, com mais frequência, pode ser um livro de história. É o caso deste. Aqui na Amadora, no Pigalle ou na esplanada do Rovidi estaciono amiudadas vezes para beber o café da praxe, mas o mais agradável é a leitura no meio do ruído ambiente. Resulta divertido estar, por exemplo, embrenhado no significado político das regras de etiqueta da corte de Luis XIV, enquanto ao meu lado um velho casal na sua rotina quotidiana de peregrinação à bica, faz o enésimo comentário amargurado à ordinarice do Herman... O exemplo até vem a propósito desta notável obra de um velho intelectual francês americanizado e que em saudável desplante exalta a superioridade do Ocidente e dá pistas para entender a sua actualdecadência. Nada de relativismos culturais; nada de lassitudes conceptuais! Barzun está-se nas tintas para o intelectualismo da esquerda europeia com os seus complexos de culpa, com as suas construções estruturalistas. Durante quase 500 anos a Europa Ocidental foi uma civilização superior (como antes outras o foram, naturalmente...). Ainda hoje o é, apesar de tudo. É algo tão evidente que se torna axiomático. Já nem me refiro àquilo que, por exemplo, Braudel designava como civilização material, já que qualquer enunciado estatístico elementar o comprova, mas às mais elementares realizações da arte, cultura, ciência e técnica.... Além disso, temos aqui uma escrita historiográfica à velha maneira. É um história feita com gente e factos e não tanto com artificiosas construções mentais elaboradas em prol de alguma tese apriorística. Enfim, que bom ter livros destes para ler.
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Jacques Barzun in Wikipedia