quarta-feira, março 04, 2009
Tiro ao alvo (24)
segunda-feira, janeiro 12, 2009
domingo, dezembro 28, 2008
Tiro ao alvo (22)
Desde logo se impõe uma reflexão preliminar: o problema da educação é global; parece-se colocar-se ao nível da generalidade das sociedades ocidentais. Qualquer professor português considerará as cenas e personagens estranhamente familiares. Basta referir que um dos problemas que atravessa o filme, o choque étnico, está cada vez mais presente nas nossas escolas, através do mesmo tipo de conflitos. É claro que a dimensão não é a mesma, mas a sua natureza é a mesma. Mas há um outro aspecto a realçar: os efeitos transversais da cultura pop. Na verdade, a cultura pop que nasceu e se afirmou ao longo dos anos foi impregnando mentalidades, ao mesmo tempo que se transformou num grande negócio. Música e roupa e outros gadgets (na verdade tudo tende a reduzir-se à condição de gadget...) transformaram-se num extraordinário negócio, mas sustentam-se em atitudes, comportamentos e modos de pensar. O individualismo agressivo, o hedonismo compulsivo e a rejeição da autoridade são o resultado à vista. Até que ponto a eficácia da escola é compatível com isto? Os jovens do filme, assim como uma boa parte dos jovens das nossas escolas enquadram-se nestes padrões. A escola não tem podido adaptar-se a esta situação sem, em última análise, pôr em causa a essência da sua função. Parece cada vez mais pertinente voltar a dotar a escola de princípios efectivos de valorização de autoridade e de esforço individual e assumi-los sem complexos e ambiguidades. Este será, em todo o caso, apenas o ponto de partida para a recuperação do seu lugar social e pressupõe, claro está, decisões políticas de fundo.
Blog A turma
Laurent Cantet - Entre les murs [A turma] (Trailer)
sexta-feira, novembro 14, 2008
Tiro ao alvo (21)
O que é mais provável que suceda? Que os professores sejam chamados a introduzir numa aplicação informática os seus objectivos individuais até uma data-limite. Quem não o fizer será avisado que ficará fora da lei. Cada um, evidentemente, sentir-se-á tentado a fazê-lo na privacidade, ruminando muitas possibilidades desagradáveis para si, se não obedecer. Algumas delas estarão sempre garantidas: aqueles poucos que seguramente obedecerão, passarão à frente, com implicações directas na graduação. Na melhor das hipóteses, o Ministério anunciará que este ano não haverá consequências para os desobedientes; insistirá na tecla da simplificação. Mas, na hora H cada um ficará com uma decisão estritamente pessoal nas mãos. E o processo formalmente avançará sempre, nem que seja com 1% de avaliados (mas serão sempre, em qualquer circunstância, bem mais...).
Tiro ao alvo (20)
- do pior que há nessa coisa chamada "ciências da educação", que de ciência tem pouco e se traduz, as mais das vezes, por uma tecnocracia construída a partir de abstracções vendidas em mestrados de moda;
- de uma concepção da escola rousseauniana - uma sopa onde se dilui qualquer vestígio de autoridade, respeito e responsabilidade.
A verdade é que a desordem das nossas escolas, ainda assim, assegurava bolsas, onde se podia ensinar e havia quem o fizesse com tranquilidade. Mas, o que agora se vive prenuncia a redução da escola a armazém pop de tempos livres, segundo a vulgata politicamente correcta. Alguns pais ociosos e pretensiosos terão aí livre entrada para lançar foguetório de disparate e distribuir alguma bordoada por profs. Estes, aliás, tenderão a rastejar como técnicos tendencialmente ATL, ou seja, como divulgadores de itens de virtudes de cidadania e animadores de sala e de pátio. A intriga será larvar, enfeitada aqui e ali por cenas canalhas. Triturados os seus neurónios por grelhas e desdobramentos de objectivos até à paranóia, serão premiados aqueles mais habilidosos em construir "aldeias Potenkine" no universo vivaz do portfolio e, por que não, serão também premiados alguns ascetas prontos para sacerdócios masoquistas. Imperará o optimismo e voluntarismo de fachada, assentes nas estatísticas do supérfluo. Dias não distantes chegarão em que se proclamarão todos os sucessos educativos possíveis, em cerimónias ilustradas por powerpoints transbordantes de gráficos comparativos...
Entrementes, a transição actual serve fins políticos de assessores que intuem, não sem pertinência, que a inveja - atributo fatal de um povo que tem nos seus genes a herança de famintos camponeses - compensará eleitoralmente a sova sobre os profs. Estes vivem agora um pesadelo, que uma situação longamente acomodada pelo zelo sindicalista e incompetência governativa (com destaque para os governos do PS!) não deixava entrever. Apopléticos, e-mailizam-se convulsivamente, uivam moções sobre moções e desfilam em hipermanifs desesperadas.
Talvez fosse útil reflectir e elevar a contestação ao nível onde se situa o processo mais global do desastre educativo. A própria eficácia da luta teria a ganhar com isso. Com efeito, é imperioso elevar o nível dos agravos e ser inteligente, se se quiser ter a mínima hipótese de não perder em toda a linha. Desde logo, reconheçamos que o que existia antes era uma treta e que é necessário que exista, mesmo, um mecanismo de efectivo reconhecimento do mérito, mas sem que pareça conversa fiada. Denunciemos os efectivos defeitos deste sistema, sem exageros teatrais. Centremos mais as preocupações na qualidade de ensino, sem que pareça ser slogan. Apresentem-se propostas alternativas, mas sérias! Ao mesmo tempo, ponham-se de lado ilusões sobre uma luta que só os ingénuos podem imaginar que se ganhe à força de moção... Imaginação é preciso! E, sobretudo, organização!
domingo, março 09, 2008
Tiro ao alvo (19)
O modelo de gestão parece positivo. É desejável que a gestão das escolas deixe de estar cativa dos interesses corporativos dos professores. Contudo, noutras áreas sensíveis e decisivas as opções têm sido más. É assim com o modelo de avaliação de desempenho e, de um modo geral, com parte da avassaladora produção legislativa (alguém aplicou-lhe a designação de diarreia legislativa) em que destaco o modo como foi criado o corpo de professores titulares e, mais recentemente, o estatuto do aluno. São regulamentações complexas, por vezes contraditórias e ambíguas, lavrando injustiças a eito e criando problemas desnecessários. Descontadas as compreensíveis necessidades de aliviar encargos salariais, se algo parece claro, é, efectivamente, a pretensão de fazer grandes mudanças em pouco tempo. É indispensável introduzir grandes mudanças no nosso sistema de ensino. Porém, não é atinado querer mudar em tantos domínios, ao mesmo tempo, de modo tão radical e, o que é pior, em certos domínios cruciais, no sentido errado. Sucede que esta equipa não quer, simplesmente, pôr as coisas melhores, como fez com medidas tomadas no início e que, por exemplo, reduziram drasticamente os furos e o absentismo. Deveria prosseguir mais moderadamente, salvaguardando o que de bom tem feito, garantindo mais segurança e eficácia no que falta fazer e corrigindo erros. Mas parece que não quer ouvir nada nem ninguém. Assim, conclui-se, insisto, que não quer, simplesmente, pôr as coisas melhores. Quer ir, muito mais longe. Quer criar um mundo novo. Diria que parece estar acometida de um espírito messiânico, de tipo jacobino ou bolchevique... É inquietante, pois os redentores são perigosos, ainda mais num território tão sensível como o da educação. Apesar dos propósitos da senhora ministra, apesar do muito de positivo que já foi feito, parece que na equipa ministerial impera um espírito de cruzada, provavelmente inspirado em alguns credos mais ortodoxos das ciências da educação. Justifica-se esta inquietação, pois muito do que se vai revelando é próprio das teorias obcecadas por objectivos e competências, que têm ajudado a levar a educação ocidental ao descrédito. Já agora, diga-se que, curiosamente, este é o mesmo continente ideológico da velha esquerda que formou o nosso sindicalismo... A base são concepções rousseaunianas, onde a escola é vista como um lugar mais de prazer do que de esforço e relativiza-se a disciplina.
No que diz respeito à avaliação de desempenho, é um modelo orientado para uma realidade de papel traduzível em estatísticas. Objectivamente, é uma forma de obter indicadores a partir de estereótipos beahaviouristas, que são extrapolados e magnificados. Contudo, num ambiente inopinadamente competitivo, será também um infernozinho burocrático, assente em facilitismo para os alunos e só gratificante para os professores mais jeitosos em compôr a sua "aldeia Potemkine". Para aprimorar a coisa, em muitas escolas, a avaliação inter pares adiciona desconfianças, promiscuidades e invejas próprias de relações pessoais que há muito descambaram do plano profissional. Ou seja, burocracia e intriga. É certo que alguma melhoria resultará na prática lectiva, mas o processo será demasiado desgastante. Ou seja, a relação custos/benefícios será má. E, afinal, a alternativa seria simples: deixar no futuro director todas as competências avaliadoras, que seriam expeditamente tramitadas ao fim de três anos. Sem burocracias e esforços inúteis! Haveria ainda outras alternativas, como preparar um corpo especializado de inspectores. Mas escolheu-se um modelo burocrático, fomentador de intriga, amigo de zelotas das grelhas, de jardineiros de portfolios e encenadores habilidosos.
Nestas circunstâncias passo para o outro lado, onde agora, ironicamente, surgem propostas alternativas válidas, geradoras de menos injustiças e onde, até, os sindicatos já fazem um implícito reconhecimento de que o que existia antes era insustentável.
sábado, maio 12, 2007
Tiro ao Alvo (18)
Em contrapartida, pouco de tacticista e muito de estratégico existiu no consulado da Dama de ferro. Havia ideologia e coerência política na sua aplicação, para o bem e para o mal... Dizem-nos as estatísticas que os seus efeitos, se não foram imediatamente mais positivos que negativos, acabaram idiscutivelmente por o ser a médio prazo. A decadência britânica, tão patente nos finais de 70, inverteu-se de tal modo que é hoje aquela, entre as maiores potências europeias (RU, FR, ALE, ITA, ESP), que tem uma economia mais dinâmica e o melhor nível de vida. Poucos políticos teriam a coragem de fazer o que a Dama de ferro fez, ainda por cima sabendo que os resultados positivos só poderiam ser apreciados muito para além dos cada vez mais apertados ciclos eleitorais. Uma boa dose de liberalismo, sabiamente administrada consoante as circunstâncias é sempre a melhor via para a riqueza e a verdadeira justiça social.
segunda-feira, março 26, 2007
Tiro ao Alvo (17)
Vejamos serenamente esta questão. Foi ou não Salazar um grande português? Evidentemente que foi. Resolver a questão do que é ser um "grande português" endereça para valores nacionais. Pode-se concordar ou discordar dos valores do ditador, mas ninguém, de boa fé, pode ignorar que os valores nacionalistas ocupavam o centro do seu ideário. A sua acção política foi, pelo menos até à década de 50, benéfica para o posicionamento de Portugal no mundo, ainda por cima, num período tremendo, marcado pela Guerra Civil de Espanha e pela II Guerra Mundial. Com habilidade, jogando um complicado jogo de equilíbrios, num cenário de fundo explosivo, conseguiu poupar directamente o país às convulsões europeias, ainda por cima, sem perdas. Só isto (acaso foi pouco?) seria suficiente para o colocar numa galeria de ilustres da nossa história. É claro que era um ditador (que não fascista...), mas nos anos trinta, tal não só não era anacrónico, como natural. Foi até, diriamos, comparativamente com as demais ditaduras (a começar com a da Espanha franquista), um ditadura branda. O estado nunca assumiu um carácter totalitário e a repressão foi, geralmente, selectiva, incidindo sobre os comunistas. Estes, é necessário não esquecer, apesar do seu heroísmo, sempre tiveram um projecto político que desemboca, esse sim, em ditadura feroz... Porém, os fundamentos do pensamento salazarista não consistiam só no nacionalismo e no anti-comunismo. A argamassa era o conservadorismo católico. Tal contribuiu para moderar efectivamente as tendências extremistas. Depois, o que é fundamental, impôs um modelo sóbrio de governação, assente no espírito de serviço público, que teve, durante muito tempo, importantes benefícios internos, traduzidos em estabilidade, segurança e fiabilidade das instituições. Com todos os seus defeitos e qualidades o salazarismo sintonizava com a realidade social e mental de um país periférico e rural; emanava naturalmente de um Portugal profundo...
É claro que à medida que o tempo foi passando o pensamento de Salazar passou a ter consequências muito mais negativas que positivas. Nos anos 60 era já, sob todos os pontos de vista, um pesado anacronismo que, entre outros aspectos conduziu o país a um beco sem saída na questão colonial. E sob o ponto de vista económico perderam-se muitas oportunidades. O necessário impulso democratizador jamais foi encarado, é claro. Faltou um mínimo de realismo. O que fora adequado até inícios dos anos 50 tornou-se um lastro sem solução de continuidade. A força ideológica do salazarismo tinha em si uma tremenda fragilidade - a rigidez dos seus princípios conduziu à inevitável auto-destruição num mundo em grande mudança. O 25 de Abril acabou por ser o resultado último desse desajustamento. Contudo, o processo democratizador só alcançará verdadeiramente a maturidade quando a nossa democracia souber encarar Salazar e o salazarismo no seu contexto; quando, enfim, tiver capacidade de valorizar o que fez de positivo e, inclusivamente, capacidade de incorporar alguns valores conservadores. Para além do seu carácter de conjuntural protesto, este concurso televisivo pode ser uma bofetada na cegueira dogmática das esquerdas sem remédio que desbloqueie um pouco o caminho nesse sentido.
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Tiro ao Alvo (16)
Em boa verdade, as revelações de Carolina não acrescentam nada ao que já se sabia. Há muitas calúnias, mentiras, meias verdades e exageros. Mas há, certamente, algumas realidades que não se podem, nem devem ignorar, sobretudo pelos que, como eu, são orgulhosos da sua condição portista. Torna-se cada vez mais visível que Jorge Nuno Pinto da Costa foi decisivo e indispensável na ascensão e consolidação do FCP, mas perdeu brilho nos últimos anos. Sabe-se que nunca foi, nem pretendeu ser, um modelo de virtudes. Para os adeptos, o que sempre interessou foram as suas capacidades de líderança, cujos resultados transcenderam tudo o que se poderia imaginar e que jamais algum dirigente desportivo conseguiu alcançar. Todos os portistas, lhe estarão eternamente gratos. Tem um lugar à parte na história do clube. Contudo, não há personagens isentos de defeitos e Jorge Nuno Pinto da Costa é uma moeda de duas faces. Na menos brilhante inserem-se algumas práticas de "não olhar a meios para atingir fins". Acredito que entre meados de 80 e meados de 90 tivesse havido algum manejo de bastidores, em que se tentou influenciar a arbitragem e que isso deu alguns frutos, embora, nem pouco mais ou menos aqueles que, em típico delírio de inveja, foram e são esgrimidos... Nesse tempos, e dadas as circunstâncias, era compreensível. O futebol português era um mundo à margem. Entre influências institucionais vindas de um longo passado e pequenos jeitos para amigos, que sempre caracterizaram uma sociedade com uma matriz mental de manhas e expedientes camponeses, quem renunciasse a essas vias seria um tolo. Nesse contexto, tais manejos eram compreensíveis. Será necessário um pesado facciosismo ou, mesmo, alguma má-fé para não reconhecer que os outros só não o fizeram com eficácia, não por renegarem os métodos, mas por incompetência. O essencial é que, numa estratégia que incorporou tais práticas, se construiu a base para uma boa equipa de futebol, dentro das quatro linhas. A sua legitimidade não foi menor do que aquela que havia na base de amparo institucional para o Sporting dos 5 Violinos ou o Benfica de Eusébio. Seja como for, insisto, construiu-se a estrutura para o melhor futebol efectivamente jogado em Portugal e com projecção internacional.
Os tempos mudaram, evoluíram. Descontado o oportunismo das frustradas legiões de adeptos sportinguistas e benfiquistas, as exigências éticas foram crescendo. A persistência de tais práticas, pela força da rotina e do vício, tornou-se um inconveniente excesso de zelo. Nada trouxe de bom, sob nenhum ponto de vista, desde há uma década para cá. Nos últimos anos, entre os três grandes, o FCP é o relativamente menos beneficiado pelas arbitragens. Temerosos por serem associados a tais práticas, os árbitros, in dubio, decidem contra as cores azuis e brancas. Contudo, Jorge Nuno Pinto da Costa tem dificuldade em exercer de timoneiro sem esse modus operandi e, além do mais, certos males de um ego desmedido têm vindo a agravar-se. O livro de Carolina é o resultado destes dois factores.
Seria absurdo imaginar que a nação benfiquista seguisse o velho princípio imperial: "Roma não paga a traidores". Pelo contrário, esse universo plebeu recompensa, com entusiasmo pueril, os traidores. De certa fora, é a metáfora do país que temos, acrisolado na inveja. Imaginam o seu rival com depositário de todos os defeitos mafiosos, porque não aguentam a evidência do mérito das suas glórias. Afadigam-se em encontrar a chave do segredo, exclusivamente nos terrenos mais pantanosos, mas as tentativas de encontrar um padrinho superior têm sido grotescas e algumas, como o fenómeno Vale e Azevedo, trouxeram vexames inomináveis.
Pelo seu lado, a aristocracia de Alvalade insiste em proclamar as suas virtudes num processo que desde há muito consolidou uma cultura de derrota, servida por um exemplar espírito calimero.
Dois tipos distintos de medíocridade instalaram-se e criaram raízes na Segunda Circular. Na Invicta, criadas as indispensáveis estruturas que, em devido tempo, permitiram as condições para as vitórias internas, instalou-se um futebol competitivo e susceptível de proporcionar qualidade dentro das quatro linhas, conquistando glórias na Europa e no mundo. Para os portistas, evidentemente, há que preservar este estado de coisas, mas para os mais lúcidos, como Miguel Sousa Tavares, chegou a hora de dizer que, para tal, talvez seja preciso que o tempo de Jorge Nuno Pinto da Costa acabe. Entre os portistas que se discuta serenamente tal questão. Quanto a outros, pois que continuem a pagar a traidores. Vão longe!
sábado, dezembro 09, 2006
Tiro ao Alvo (15)
Vivemos tempos democráticos, em que o povo é servido à medida dos seus gostos por uma indústria mediática. Esta esmera-se em dar-lhe ídolos e sensações fortes. A Princesa Diana foi um desses ídolos. A sua morte foi uma oportunidade para um prato bem servido de sensações fortes. Este filme aborda o modo como a família real britânica, e muito em especial, a rainha, lidaram com as vagas altas dessa indecorosa exploração. Oferece ocasião para reflexões em diferentes sentidos: não só sobre a histeria sensacionalista do vigente império mediático, mas também sobre a natureza e o carácter da instituição monárquica e sobre o que efectivamente vale a democracia actual, por exemplo. Quem é avesso ao reconhecimento da valia das instituições monárquicas poderá ter aqui uma lição - no mínimo dos mínimos, pode ser um contraponto à vulgaridade imperante, ou seja esta mistela de plebeísmo e individualismo hedonista servida em doses maciças de superficialidade e falta de valores substantivos. Mas, não é difícil ir mais longe e perceber como a instituição monárquica pode deter um valor simbólico agregador dos valores históricos identitários da comunidade.
Fazer um filme como este não foi tarefa fácil. Pôr em cena personagens vivos que permanecem na ribalta, ainda por cima da talha da própria rainha ou do primeiro-ministro Tony Blair, requer coragem e suma habilidade. Stephen Frears sai-se bem da façanha. Se para tal tem o decisivo contributo da actriz Helen Mirren (candidata ao óscar de melhor actriz), na verdade também não deixa de ter uma boa ajuda por parte de Michael Sheen, como Tony Blair. Lidar com um argumento como o que serve de base a este filme é, logo à partida, um exercício de atrevimento que define a capacidade de um realizador.
Info IMDb
sexta-feira, dezembro 08, 2006
Tiro ao Alvo (14)
Não consegui encontrar on-line o artigo em questão, o qual, julgo, ter lido no Público. Contudo, uma simples pesquisa no Google conduziu-me a este artigo, Vacas contaminantes, o qual aborda o mesmo problema.
quarta-feira, novembro 08, 2006
Tiro ao alvo (13)
| VPV e o funil.mp3 |
| Hosted by eSnips |
Extracto da entrevista de Vasco Pulido Valente a Pessoal e Transmissível, de Carlos Vaz Marques. (TSF, 8 de Novembro de 2006).
Informação e ficheiro audio retirados de A Origem das Espécies, de Francisco José Viegas.
quinta-feira, outubro 05, 2006
quarta-feira, julho 19, 2006
Tiro ao Alvo (11)
Enfim, o assunto é desgraçadamente mais sério para poder sustentar frivolidades. A verdade é que estes terroristas (não esquecer a sua essência!) praticaram actos de guerra contra um país de dimensões mínimas e acossado desde a sua origem, cuja viabilidade só é possível com a disposição incondicional e imediata para responder a desafios desta natureza. Há quem refira a soberania de um país, o Líbano, a existência de um governo que, aliás, estava agora em processo de se libertar da degradante tutela síria. Mas que raio de país soberano é esse que permite e ampara a existência de um autêntico estado independente dentro do seu seio, cuja essência é, precisamente, constituir-se em ameaça à existência de um estado vizinho? O vigor da resposta israelita é resposta legítima a actos de guerra e é, sobretudo, condição essencial para fazer valer o seu direito à existência através do exercício do elementar da auto-defesa.
domingo, maio 28, 2006
Tiro ao Alvo (10)
A generalidade dos professores portugueses vive numa inusitada situação de relativos privilégios. É indispensável que estes deixem de contemplar o umbigo dos "direitos adquiridos" e encarem a nova realidade. Se assim não for, será pior para todos. Mesmo numa lógica de interesses corporativos há muito mais a perder para além do que parece já certo, com maior ou menor espernear politico-sindicalmente induzido... Uma progessão minimamente suada e o rastreio de vocações erradas são trivialidades em qualquer profissão digna desse nome. Estabelecer uma mínima diferenciação entre os melhores e os demais, também. Cercear o acesso ao topo através de uma espécie de numerus clausus também se entende, atendendo ao estado das finanças. Vai certamente doer, mas não há alternativa.
Contudo, também não se deve deixar de sublinhar que os privilégios que têm bafejado os professores são comuns à generalidade dos cargos superiores da “função pública”, havendo outras situações mais sintomáticas. O sindicalismo arrancou sem grande esforço esses privilégios e ainda com menor esforço blindou-os. O oportunismo e incompetência de sucessivos governos pactuou com eles e consagrou-os. São privilégios quantificáveis e não quantificáveis – estes últimos passam pelo clima de relação pouco exigente que se estabelece entre colegas, (o “porreirismo”). O que se anuncia é a intenção de fazer entrar os professores numa situação de normalidade desconhecida. Só que, atenção, o mesmo, provavelmente, será necessário fazer com professores universitários, militares de carreira, médicos... É o inevitável caminho para evitar a bancarrota. No caso dos professores é também o caminho para tentar minimizar o desastre educacional. Contudo, em relação a este desastre, é importante que se tenha em conta que não basta uma maior exigência profissional - é preciso também inverter política e filosofia educativas, o que é complicado, pois os relativismos culturais e visões afins, que tantos danos têm causado à educação, pontificam ainda no mundo em que estamos inseridos. Precisamente, a área política de onde emana o governo é das que mais têm cultivado tais visões... Há ainda um outro aspecto: intenções, por mais bem intencionadas que sejam, não chegam. Tem-se observado na prática deste ministério um certo despiste e voluntarismo que, em vários domínios, têm criado novos problemas. É espantoso que, aparentemente, não se tenha ainda percebido que o essencial passa pela gestão escolar, a qual está muito longe de ter meios e condições de legitimidade para ser o braço executor das orientações ministeriais. Em todo o caso, o ministério navega no rumo certo. Que a nave não naufrague entre as violentas tempestades que se avizinham!
sexta-feira, março 10, 2006
Tiro ao Alvo (9)
Choderlos de Laclos - As Ligações Perigosas (Les Liaisons Dangereuses) 1990 (1782)Não há nada mais cultural do que o sexo. Não se pode ignorar nunca o rebarbativo lugar-comum de que o amor significa mais frequentemente infelicidade do que o seu contrário. Este facto está consagrado pelo bom-senso, pese embora a tola publicidade hedonista triunfante e é, enfim, o reconhecimento da natureza eminentemente cultural do amor. O que de melhor e pior há na espécie humana aflora neste território implacável. Pura, vã, ridícula ilusão a de se pretender que a "educação sexual" pode ter algum lugar na evolução da espécie que não o de ser mais um elemento para a desagregação de valores da civilização. Mas se se pretende alguma educação formal neste domínio, pois há que dizer que os "manuais" serão de um tipo radicalmente distinto do que o polticamente correcto imagina... Com efeito, histórias de perversidade como a que serve de sustento a estes dois filmes, demonstram-nos que amor e sexo são domínios de cultura (sentido antropológico) e carácter. Mulheres e homens combatem com as suas armas cruéis e aqueles que não têm armas ou talentos nestes combates arriscam-se a ser dizimados. Ora, as convenções sociais, com toda a sua estimável canga moralista, não existem por acaso; existem (ou existiam...), sobretudo, para proteger os mais fracos e, assim, garantir coesão na vida social. Foi precisamente em certos momentos e lugares (os ambientes da aristocracia francesa do século XVIII, por exemplo) onde tais regras e convenções entraram em crise, que a sociedade começou a desagregar-se (O Marquês de Sade é um prelúdio da Revolução Francesa...).Não admira que ao longo do século XIX o romance de Laclos tivesse sido censurado e, pode-se dizer, considerado maldito. Os costumes burgueses não poderiam ter outra atitude. Na verdade, ele põe a nu mecanismos de perversidade de que a espécie humana é capaz - enfim, o que a sociedade sabe, mas que convencionou fazer de conta que não sabe. Transpira sageza por todos os poros e é uma cabal demonstração literária de como a espécie fornica com os neurónios. Além disso, a sua leitura, através de uma original forma epistolar, revela-se um subtil jogo psicológico enriquecido por pormenores a que o cinema não pode atender.
Choderlos de Laclos - As Ligações Perigosas (1782)
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Página Web sobre Choderlos de Laclos
Stephen Frears - Dangerous Liaisons (1988)
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Info IMDB Dangerous Liaisons
Milos Forman - Valmont (1989)
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Info IMDB Valmont
sábado, fevereiro 25, 2006
Tiro ao Alvo (8)

Livro: Harold Bloom - El Canon Occidental (The Western Canon) 1997 (1994)Eis os nomes mais destacados da lista canónica:
Shakespeare (o centro do cânone); Dante; Geoffrey Chaucer; Cervantes; Montaigne; Milton; Goethe; William Wordsworth; Jane Austen; Walt Whitman; Emily Dickinson; Charles Dickens; George Eliot; Leão Tolstoi; Henrik Ibsen; Marcel Proust; James Joyce; Virginia Woolf; Franz Kafka; Jorge Luís Borges; Pablo Neruda; Fernando Pessoa; Samuel Beckett.
É uma obra de um erudito para o grande público. Indispensável.
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Harold Bloom in Stanford PLHA
domingo, janeiro 22, 2006
Tiro ao Alvo (7)
Mas se se evitou o pior, não quer dizer, evidentemente, que esta vitória tenha efeitos miraculosos. Nem sequer, como se sabe, a Presidência é um lugar com meios e condições para uma intervenção política ao nível decisivo que os nossos problemas exigem. Além de que Cavaco Silva, pese as suas qualidades, não pode ser o homem providencial. Em todo o caso, estou feliz... por Portugal!
sábado, dezembro 31, 2005
Tiro ao alvo (6)
Excesso de zeloEu não fumo e nunca fumei. Contudo, tal ocorreu de forma natural, sem que jamais desenvolvesse preconceitos quanto ao tabagismo. Em todo o caso, estou ciente que o tabaco pode fazer bastante mal, como muitas outras coisas, aliás (em rigor, se o zelo alastra com coerência, teremos os cenários do nosso quotidiano povoados de advertências "x, y ou z... mata!"). Seja como for, considero benéfico o processo de crescente consciencialização quanto aos malefícios do tabaco. Acho que é importante difcultar o acesso ao tabaco por parte dos menores e que devem existir campanhas de consciencialização. Tampouco me repugnam as alcavalas sobre o tabaco, desde que revertam estritamente para gastos com os sistemas de saúde. Contudo, entendo que neste processo se têm vindo a cometer exageros que denotam um execrável espírito puritano de desconfiança, senão ódio, aos prazeres da vida.
Para os fumadores, o tabaco é fonte de prazer e há que respeitar esse prazer! Além disso, o tabaco tem história e cultura atrás de si. Vastíssima e rica, deve-se dizer. Reduzi-lo à condição de mera droga é ignorância. Não sei se, eventualmente, em prol de mais algum zelo de "politicamente correcto", o governo de Zapatero se propõe rever a história de Espanha e ocultar um dos seus feitos: o papel destacado que o Império Espanhol teve na divulgação e promoção do tabaco. Aguardemos, já que o zapaterismo parece não conhecer limites de elementar bom-senso... Mas, queira-se ou não, o tabaco tem sido, efectivamente, fonte e pretexto de arte e cultura e tornou-se um signo de civilização, desde coisas quase transcendentes, como estar associado à inspiração artística, até coisas vulgares, como, por exemplo, ter sido um pretexto para a melhor e mais criativa publicidade. Tem havido muita insensibilidade para isto. Temos um exemplo na infantil norma comunitária que obriga a pespegar tarjas macabras nos maços. Estropeou algo que merece não ser desconsiderado: o design dos maços de tabaco. É caso para nos inquietarmos sobre quanto tempo mais permanecerão imunes as gravuras impressas nas cintas dos charutos puros havanos - elegantes e artísticos elementos identificadores das diferentes marcas, repletas de tradição e pâtine. O certo, é que, por agora, os maços de tabaco já foram vitimados. Apreciá-los, livres de atropelos à sua estética, é já algo que figura no baú das recordações... Na véspera do dia em que a pele do touro vai sofrer uma esfrega puritana, aqui fica, no magnífico design de um maço Camel, uma singela homenagem aos fumadores espanhóis - enfim, não faltará muito para que sejam obrigados a passar à clandestinidade...
segunda-feira, dezembro 26, 2005
Tiro ao Alvo (5)
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Jacques Barzun in Wikipedia








