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segunda-feira, julho 14, 2008

Guia hispânico (31)

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Ernest Hemingway - Fiesta [The sun also rises (1926)]
Li algures que as festas de San Fermín são actualmente o maior evento festivo do mundo a seguir ao Carnaval do Rio e à Festa da Cerveja de Munique. É bem possível que assim seja, tanto mais que, ano após ano, acresce a afluência de jovens forasteiros de todo o mundo. Uma boa parte deles são britânicos e a maioria são norte-americanos. A origem do fenómeno está, evidentemente, em Ernest Hemingway e, em particular, no romance Fiesta.
Pamplona está reconhecida ao escritor e são múltiplas as referências que o atestam. Por exemplo, junto à Praça de Touros há um grande busto acompanhado por palavras
que traduzem eloquentemente um espírito cívico de gratidão. É como se o escritor norte-americano se tivesse tornado património pamplonês; e é justo que assim seja! Ora, sucede que o romance é, além do mais, excelente. Merece ser lido não só por dar uma visão expressiva dos festejos, mas também por ser representativo de um género que mistura realismo documental com trama própria de ficção. Hemingway foi um dos melhores exemplos de jornalista-escritor ou, talvez mais apropriadamente, de escritor-jornalista e este romance é do mais inspirado que nessa dupla condição se produziu.

segunda-feira, maio 12, 2008

Guia hispânico (27)

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Giles Tremlett - Fantasmas de Espanha: Viagens pelo presente escondido de um país (2008) [Ghosts of Spain (2006)]
Os comentários citados na contra-capa ajudam mesmo a perceber a valia deste livro. O autor é jornalista, correspondente em Madrid de The Guardian. Vive há década e meia em Madrid, tendo antes vivido uns anos em Barcelona. Por força dos seus afazeres profissionais, tem percorrido Espanha de lés a lés. Contudo, o que é essencial é a base de conhecimentos de natureza histórica e sociológica que possui, a qual vai além registo jornalístico. Evita-se assim cair em lugares comuns mais ou menos sensacionalistas e, pelo contrário, em certos casos, somos conduzidos a uma percepção desmistificadora. Nota-se que há um fascínio pelo país. É, diga-se, da mesma filiação da de muitos intelectuais britânicos e norte-americanos... Releva de um conceito tocado na sua origem por concepções românticas. É também daí que provem o meu fascínio... Deste modo senti como que uma espécie de cumplicidade espiritual com muitas das observações e reflexões que são desfiadas. Há ainda uma verve de pendor humorístico que constitui um valor acrescido. Só é possível porque provem de alguém que está suficientemente entranhado na condição de estar e de viver em Espanha, entendendo a forma e filosofia de vida dos seus autóctones, mas que não deixa de ser um estrangeiro, ainda por cima munido de uma matriz cultural, em vários aspectos, antagónica.
Ninguém pode encontrar melhor guia para conhecer a Espanha contemporânea, com pistas para se poder entranhar na sua rica história e cultura(s) e poderosos descodificadores para entender as suas tensões actuais. Brilhante!

quinta-feira, outubro 04, 2007

Guía hispânico (26)

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Hugh Thomas - La conquista de México (1993)
Este historiador tem já uma obra que o credita como um nome importante na extensa lista de hispanistas britânicos. Há, contudo, dois factores que o distinguem nessa insigne galeria: 1) não tem incidido exclusivamente na história contemporânea; 2) tem ideias conservadoras. Com efeito, já na anterior monumental síntese, El imperio español, se tinha embrenhado na expansão castelhana, entre a viagem inicial de Colombo e a de Magalhães. Com outra síntese de fôlego, La guerra civil española, tinha feito como que o ponto da situação do estado da arte historiográfica sobre essa matéria, nos anos 90. Duas áreas muitas distintas, dir-se-ia, mas que assinalam traves mestras para a compreensão da Espanha moderna e contemporânea.
Em El imperio español, a conquista do México já merecia extenso destaque. Aqui temos um desenvolvimento minucioso da saga de Cortés. É matéria fascinante em si, como exemplo de choque de civilizações e ponto de partida de um processo de mestiçagem cultural. Mas há um fascínio adicional para os historiadores avisados: desfazer mitos que decorrem da visão anacrónica com que muitas vezes tal choque é apreciado. Foram mitos que constaram da visão tradicional do nacionalismo espanhol. São ainda outros mitos que continuam vigentes na visão hipercrítica racionalista, afim à sensibilidade das esquerdas, digamos, e que têm tido livre curso na percepção comum. São mitos opostos, mas nocivos à compreensão da história e, portanto, devem ser denunciados. Porém, não estamos perante uma obra articulada em torno da denúncia, nem de qualquer outro proselitismo. Nada disso! Temos um criterioso levantamento de factos, contrastados e acompanhados de perspectivas de enquadramento. É precisamente a sobriedade e o bom-senso que acabam por desencadear um posicionamento naturalmente alheio a tais mitos.
O México acabou por se tornar uma realidade mestiça de incomensurável riqueza e em poucos lugares do mundo encontraremos algo de tão fascinante a este nível! O fascínio desata-se imediatamente nas peripécias únicas da conquista, em que determinados detalhes podem adquirir um significado crucial. São páginas que se lêem como num romance fantástico ou como em certas parábolas bíblicas, seja pela trama de acontecimentos extraordinários, seja pelas abundantes lições de vida. Vejamos uma, bem conhecida e absolutamente sintomática: Perante os desafios de um Mundo Novo, frente a perigos desconhecidos, Cortés, contrariando as instruções que recebera, manda destruir os barcos que os conduziram até esse ponto - um ponto de não retorno. A ele e aos seus 500 homens só restariam duas opções: conquistar ou morrer!

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quarta-feira, janeiro 03, 2007

Guia hispânico (25)

Manuel de Falla / Victoria de los Angeles / Rafael Frübeck de Burgos / Carlo Maria Giulini / Orquesta Nacional de España / Philarmonia Orchestra - La vida breve (1966); El amor brujo (1966); El sombrero de tres picos (1966)... (2001)

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Manuel de Falla / Victoria de los Angeles / Rafael Frübeck de Burgos / Philarmonia Orchestra - El sombrero de tres picos - Segunda parte (La noche): Danza final (1966)

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Guia hispânico (24)

Marina Mayoral - Tristes armas (2001)
A sociedade espanhola parece cada vez mais decidida a enfrentar os pesados fantasmas da Guerra Civil. O tabu vai quebrando-se. Algo que se nota na historiografia, mas também na literatura. A pequena novela aqui em apreço é um exemplo, tanto mais se se tiver em consideração que parece vocacionada para públicos juvenis. A história de duas pequenas irmãs, que na voragem dos acontecimentos acabam num orfanato soviético ilustra a triste trajectória de los niños de Rusia. O que tem de notável é a capacidade de transmitir realidades horríveis de um modo que não agride a sensibilidade, o que se nota no cuidado de fazer intervir vários personagens de bom carácter (de ambos os bandos!), que arriscam a sua segurança em nome dos elementares valores da humanidade. É, portanto, uma visão que supera completamente qualquer vestígio de maniqueísmo, acabando por ser uma pequena ajuda para o entendimento da psicologia humana em situações tão extremas como a de uma cruel guerra civil, com tudo o que envolve de proximidade familiar e mental entre os intervenientes dos dois bandos.
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quinta-feira, outubro 19, 2006

Guia hispânico (23)

A vista de pájaro - genérico
Aprecie-se o genérico da inolvidável série A vista de pájaro que, em meados dos anos oitenta, foi a pioneira na arte de nos fazer viajar por terras de Espanha através do ar. Este exemplo diz respeito à província aragonesa de Huesca. Cada episódio, com a duração média de 25 minutos, abrange uma província. Ao todo são 51 episódios, já que Ceuta e Melilla foram agregadas num único episódio. Como referi em anteriores posts, já houve edição em pack VHS e, mais recentemente, em pack DVD - com tratamento digital de imagem e audio.

sábado, setembro 16, 2006

Guia hispânico (22)


José María Zavala - Los horrores de la Guerra Civil (2004)

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Francisco Sevillano Calero - Exterminio: el terror con Franco (2004)

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A leitura destas duas obras constitui dura prova contra a sensibilidade humanista de qualquer carácter bem formado. Contudo, compete à História revolver os pesadelos vividos pela humanidade, para, na medida do possível, ajudar à sua compreensão. Estes dizem respeito a um tempo e a um espaço que nos são relativamente vizinhos. São mais um contributo para que devamos entender que a distância entre civilização e barbárie é mais ténue do que este tempo (últimos 50 anos) e lugar (civilização ocidental) possam ilusoriamente induzir... Os desastres balcânicos da passada década podem ser um aviso para a possibilidade de advento de experiências já desgraçadamente vividas.
Para a sociedade espanhola, revolver estes horrores pode ser ainda traumático... mas é imperioso fazê-lo. Está já na altura de o fazer. É uma questão de elementar justiça! Compreende-se que a Transição assentasse num tácito pacto de silêncio sobre a Guerra Civil. Mas já passou mais de um quarto de século. Quanto à guerra, propriamente dita, cumprem-se agora 70 anos sobre a sua eclosão...
Não por acaso têm-se revelado nos últimos anos múltiplas obras de investigação levadas a cabo por jovens historiadores espanhóis. Se é certo que, no que diz respeito a grandes obras de síntese, o primado continua a pertencer à historiografia britânica (e a recente obra de Antony Beevor é a confirmação dessa primazia), no que diz respeito a monografias é já muito significativo o conjunto de trabalhos entretanto realizados e quase todos de autores espanhóis.
Neste caso concreto trata-se de duas sínteses temáticas sobre a violência e repressão de rectaguarda. Contudo, enquanto a primeira, indiscrimidamente, aborda os dois bandos, a segunda dedica-se exclusivamente ao bando franquista, desenvolvendo uma tese já enunciada por vários investigadores - o terror como estratégia de
política de extermínio. A primeira têm características mais acordes com a reportagem jornalística do que com a metodologia historiográfica, não deixando de ser um poderoso testemunho que paira magnificente acima de qualquer facciosismo, numa cabal demonstração de como a crueldade e fanatismo se espalharam abundantemente pelos dois lados. Pena é que a contrastação das fontes nem sempre esteja ao nível que se desejaria, podendo aqui e ali incorrer em certos laivos de sensacionalismo.
É preciso ter resistência anímica para empreender a leitura destes testemunhos. Parece-me, insisto, que seria importante que a sociedade espanhola, aparentemente já tão distanciada de todos estes horrores, se confrontasse com fantasmas que nunca chegou verdadeiramente a exorcizar.

segunda-feira, julho 17, 2006

Guia hispânico (21)

Don Miguel de Unamuno (1864-1936)

Entre as tragédias da Guerra Civil de Espanha encontramos inúmeros testemunhos de cobardia e de coragem. Vejamos este conhecido episódio protagonizado por D Miguel de Unamuno na sessão solene do dia da Hispanidade de 1936 na Universidade de Salamanca, de que era então reitor. Passo a citar Antony Beevor em La Guerra Civil Española:
“Mientras tanto, de los altavoces en las calles surgían las notas del himno de la Legión El novio de la muerte y en las emisoras de radio cada tarde sonaba un cornetín para anunciar el “parte” desde el cuartel del Generalísimo. En este ambiente cuartelero iba a tener lugar un notable acto de coraje moral, un incidente jaleado por el énfasis que se dio en él al valor puramente físico de la guerra. El 12 de octubre, aniversario del descubrimiento de América, “Día de la Raza”, tuvo lugar un acto ceremonial en el Paraninfo de la Universidad de Salamanca. La audiencia estaba integrada por notables del Movimiento, incluido un fuerte contingente de la Falange local. En el estrado tomaron asiento Carmen Polo, esposa de Franco, Pla y Deniel, obispo de Salamanca, el general Millán Astray, fundador del Tercio de Extranjeros (que llegó acompañado de sus legionarios), y Miguel de Unamuno, rector de la Universidad. Unamuno, irritado contra los gobernantes de la República, había apoyado al principio el “alzamiento” que debía “salvar la civilización occidental, la civilización cristiana que se ve amenazada”, pero no podía pasar por alto la matanza que se había llevado a cabo en la ciudad bajo las órdenes del comandante Doval, (…) ni los asesinatos de sus amigos Castro Prieto, alcalde de Salamanca, Salvador Vila, catedrático de árabe y hebreo de la Universidad de Granada, o García Lorca.
Los discursos iniciales corrieron a cargo de Vicente Beltrán de Heredia y de José María Pemán. Acto seguido el profesor Francisco Maldonado lanzó una tremenda diatriba contra los nacionalismos catalán y vasco, “cánceres de la nación” que había de curar el implacable bisturí del fascismo. Al fondo de la sala alguien lanzó el grito legionario “¡Viva la muerte!” y el general Millán Astray, que parecia el auténtico espectro de la guerra, manco, tuerto y cubierto de cicatrices, dio los “¡Vivas!” de rigor, mientras los falangistas saludaban a la romana hacia el retrato de Franco, que colgaba sobre el sitial de su esposa. El alboroto se desvaneció cuando Unamuno tomó la palabra:
Estáis esperando mis palabras. Me conocéis bien y sabéis que soy incapaz de permanecer en silencio. A veces, quedarse callado equivale a mentir. Porque el silencio puede ser interpretado como aquiescencia. Quiero hacer algunos comentarios al discurso, por llamarlo de algún modo, del profesor Maldonado. Dejaré de lado la ofensa personal que supone su repentina explosión contra vascos y catalanes. Yo mismo, como sabéis, nací en Bilbao. El obispo, lo quiera o no lo quiera, es catalán nacido en Barcelona.
Pla y Deniel se removió a disgusto por la alusión de Unamuno a su lugar de origen, que era casi en si mismo una implicación de deslealtad a la cruzada nacional. Entre el silencio, Unamuno prosiguió:
Pero ahora acabo de oír el necrófilo e insensato grito: “¡Viva la muerte!”. Y yo, que he pasado mi vida componiendo paradojas que excitaban la ira de algunos que no las comprendían, he de deciros, como experto en la materia, que esta ridícula paradoja me parece repelente. El general Millán Astral es un inválido. No es preciso que digamos esto con un tono más bajo. Es un inválido de guerra. También lo fue Cervantes. Pero, desgraciadamente, en España hay actualmente demasiados mutilados. Y, si Dios no nos ayuda, pronto habrá muchísimos más. Me atormenta pensar que el general Millán Astral pudiera dictar las normas de la psicología de la masa. Un mutilado que carezca de la grandeza espiritual de Cervantes, es de esperar que encuentre un terrible alivio viendo cómo se multiplican los mutilados a su alrededor.
Llegado Unamuno a este punto, Millán Astray ya no pudo contener su ira por más tiempo. “¡Muera la inteligência! ¡Viva la muerte!” gritó a pleno pulmón. Falangistas y militares echaron mano a sus pistolas y hasta el escolta del general apuntó su subfusil a la cabeza de Unamuno, lo que no impidió que éste terminara su intervención en tono desafiante:
Este es el templo de la inteligencia. Y yo soy su sumo sacerdote. Estáis profanando su sagrado recinto. Venceréis, porque tenéis sobrada fuerza bruta. Pero no convenceréis. Para convencer hay que persuadir. Y para persuadir necesitaríais algo que os falta: razón y derecho en la lucha. Me parece inútil el pediros que penséis en España.
Hizo una pausa y dejando caer, sin fuerza, los brazos, concluyó en tono resignado: “He dicho”. Se dice que la presencia de Carmen Polo le libró de ser asesinado allí mismo y que cuando Franco se enteró de lo que había ocurrido lamentó que no hubiese sido así. Seguramente los nacionales no asesinaron a Unamuno por la fama internacional del filósofo y por la reacción que había causado ya en el exterior el asesinato de García Lorca. Pero Unamuno, destituido como rector y confinado en su domicilio, murió el día de fin de año consternado y tachado de “rojo” y traidor – aunque su funeral fuera manipulado por los falangistas – por aquellos a quienes él había creído amigos.
(Pág 149 – 152)

sábado, julho 15, 2006

Guia hispânico (20)

Antony Beevor - The Battle for Spain (La Guerra Civil Española) (2005)

Está quase a cumprir-se o 70º aniversário da eclosão da Guerra Civil de Espanha. Há um surto de edições dedicada ao tema. Uma delas é precisamente esta síntese de mais um historiador britânico - Antony Beevor. Deste autor já havia lido duas obras: A Batalha de Stalinegrado e A Batalha de Berlim. Estou agora a começar esta e, para já, confirma-se a excelente escrita e o anunciado propósito de incorporar novas fontes documentais e monografias.
Uma recente historiografia, que qualificarei como "revisionista", tenta num afã de proselitismo ideológico, pôr em causa algumas ideias feitas sobre esta guerra. Em certos aspectos entende-se a pertinência, noutros evidenciam-se propósitos mistificadores. Tal "revisionismo", protagonizado por historiadores próximos do Partido Popular, acaba assim por deitar a perder muito do que de positivo pudesse ter trazido. Vejamos: É, de facto, uma falácia pretender que a República era uma democracia. Se entendermos que democracia é muito mais do que votar livremente de tantos em tantos anos, estava mesmo muito longe de o ser! Concordo, até, que vivendo-se, como se vivia, uma situação proto-insurreccional, de diluição da autoridade do estado e de
ataque mais ou menos generalizado a valores e instituições tradicionais, um golpe de estado poderia ser legítimo. Contudo, aquele golpe de estado, com a situação que imediatamente foi criada nas áreas em que se impôs, retirou-lhe qualquer vestígio de legitimidade. O radicalismo sanguinolento, em muitos e muitos casos absolutamente além do necessário (em termos de lógica de guerra) confere-lhe tal carácter. Inclusivamente, aqui e ali, a brutalidade implicou opções militarmente ineficazes. No campo nacionalista institucionalizou-se uma pulsão de violência gratuita que, na esteira da mente paranóica do caudillo, se acaba por se tornar num elemento identitário do estado. Assim, num longo pós-guerra a brutalidade não cessou, o que reforça sobremaneira o absurdo do relativismo "revisionista". Não se argumente que no campo republicano se cometeram mutíssimos actos de violência que têm sido subvalorizados pela historiografia tradicional. Tal subalorização, em termos quantitativos, tem efectivamente ocorrido e, se alguma vantagem tem tido o "revisionismo" é considerá-la, finalmente, na sua verdadeira extensão. Contudo, em termos qualitativos, o terror exercido em ambos os bandos não é equivalente! A utilização do terror foi, no bando nacionalista, uma estratégia consciente, sempre sustentada e sistematizada pelo poder. No bando republicano não se pode afirmar o mesmo - o terror teve uma outra natureza, muito mais impulsiva e carente de organização e sistematização. Esta é a minha visão, a partir de uma perspectiva moderadamente conservadora, de inspiração católica e sustentada por muitas leituras sobre este tema. Estou, portanto, a milhas de simpatizar com as esquerdas e, em concreto, com a desgraçada experiência da II República Espanhola. A título de exemplo, considero a ditadura de Primo de Rivera, nos anos 20, um regime, objectivamente, mais adequado à realidade espanhola do seu tempo do que a II República. Este livro está a reforçar ainda mais a minha visão da Guerra Civil de Espanha.

domingo, julho 02, 2006

Guia hispânico (19)

Camilo José Cela - Rol de Cornudos (1976)

Eis uma obra estranha, que, na verdade, só poderia ter sido feita por um espírito provocatório, burlón, herdeiro do ânimo pícaro da mais legítima literatura castelhana como Don Camilo José Cela. Na senda de Charles Fourier, o nobelizado Marquês de Iria Flavia dedica-se a catalogar com exaustividade todas as espécies de cornudos... Reproduzo a dedicatória com que abre o livro:
in memoriam a Charles Fourier (1772-1835) tratadista que classificou os cornudos do seu tempo e ao meu amigo Exmo Sr Don Estanislao de La Sagra y Mascareque, aliás Pijo Péndulo, (1918-1976) cujas sucesivas duas esposas tanta e tão honesta consolação proporcionaram à minha carne e ao meu espírito por terem muito e bem cornificado em vida o defunto. Laus Deo.”
O tratado desenvolve-se em forma de dicionário. A elementar classificação discriminatória entre bravos e mansos empalidece perante tão aparatosa erudição. Não que, enfim, deixe de ser pertinente, só que se emaranha num sem-número de espécies e sub-espécies.
É uma demonstração de como Cela foi um fiel depositário de algumas das mais originais características literárias do génio castelhano. Que contraste com a enjoativa virtude zapateriana. Aliás, na linha de tanta legislação protectora de minorias, aguardam-se medidas protectoras do ultrajado colectivo dos maridos enganados…
Li a edição portuguesa. Ainda hei-de ler a edição original, quanto mais não seja para confrontar opções de tradução de expressões idiomáticas cerradas.

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Camilo José Cela in Centro Virtual Cervantes

Camilo José Cela in Wikipedia

Fundación Camilo José Cela


sábado, dezembro 24, 2005

Guia hispânico (18)

Espanha: Divisões administrativas
A divisão administrativa de Espanha está basicamente assente em comunidades autónomas, províncias e municípios. Destas três, só as províncias são directamente assimiláveis a uma divisão administrativa portuguesa. Correspondem aos distritos. Contudo, a dimensão média das províncias é superior à dos distritos. As comunidades autónomas só têm correspondência com as regiões autónomas insulares - Açores e Madeira. Os municípios espanhóis são um problema... Se nos ativéssemos aos municípios de Astúrias, Galiza e Canárias poderiamos dizer que havia correspondência com os municípios portugueses. Contudo, a situação dos municípios das outras comunidades remete-nos para uma realidade mais atomizada, chegando ao ponto, por exemplo, de que em Castela e Leão a correspondência a estabelecer seria mais com as nossas freguesias do que com os nossos municípios. Também se nota a falta da adopção generalizada por todas as comunidades de uma divisão intermédia entre município e província, correspondente ao que na Galiza e na Catalunha se designa como comarca. Em Portugal este última designação tem um carácter estritamente judicial, havendo, no entanto, para efeitos meramente estatísticos, uma divisão que é conhecida a nível do Eurostat como NUTS III, que está entre município e distrito - tal nomenclatura, em Espanha, é utilizada para as províncias. Conclui-se, portanto, que a divisão administrativa de Espanha não são não é coerentemente amologável à portuguesa, como apresenta incoerências internas.

sábado, dezembro 03, 2005

Guia hispânico (17)

Mapa dos dialectos catalães

segunda-feira, novembro 28, 2005

Guia hispânico (16)

Espanha: Províncias

terça-feira, novembro 01, 2005

Guia hispânico (15)

Tendo como fonte os dados do Anuario Económico de España (La Caixa) estas são, entre as cidades com mais de 50.000 habitantes, as 25, com, respectivamente, melhor e pior nível de vida (escala de 1 a 10):

10 Barcelona
10 Bilbao (Vizcaya)
10 Pamplona/Iruña (Navarra)
10 Donostia-San Sebastián (Guipúzcoa)
10 Lleida
10 Alcobendas (Madrid)
10 Getxo (Vizcaya)
10 Girona
10 Pozuelo de Alarcón (Madrid)
10 Las Rozas de Madrid (Madrid)
10 Sant Cugat del Vallès (Barcelona)
10 Majadahonda (Madrid)
09 Madrid
09 Vitoria-Gasteiz (Álava)
09 Burgos
09 Tarragona
09 Irún (Guipúzcoa)
09 Segovia
08 Valencia
08 Zaragoza
08 Palma de Mallorca (Illes Balears)
08 Valladolid
08 Oviedo (Asturias)
08 Santander (Cantabria)
08 Castellón de la Plana/Castelló
(...)
05 Torrelavega (Cantabria)
05 Fuengirola (Málaga)
05 Puertollano (Ciudad Real)
04 Málaga
04 Elche/Elx (Alicante/Alacant)
04 Badajoz
04 Cádiz
04 Dos Hermanas (Sevilla)
04 Parla (Madrid)
04 Lorca (Murcia)
04 El Puerto de Santa María (Cádiz)
04 Chiclana de la Frontera (Cádiz)
04 Orihuela (Orihuela)
04 Alcoy/Alcoi (Alicante/Alacant)
04 Alcalá de Guadaira (Sevilla)
04 Elda (Alicante/Alacant)
04 Mérida (Badajoz)
03 Santa Lucía de Tirajana (Las Palmas de Gran Canaria)
03 Jerez de la Frontera (Cádiz)
03 Algeciras (Cádiz)
03 San Fernando (Cádiz)
03 La Línea de la Concepción (Cádiz)
03 Vélez-Málaga (Málaga)
03 Motril (Granada)
02 Sanlúcar de Barrameda (Cádiz)

quarta-feira, agosto 10, 2005

Guia hispânico (14)


Eduardo Delgado / Ángel del Pozo / José María del Río / Jaime Pérez - A vista de pájaro (2005)
Começo por reproduzir o texto do post que anteriormente escrevi sobre esta série:
"Trata-se de uma colecção de 18 cassetes com documentários sobre todas as províncias espanholas, vista de helicóptero. Foi realizado na segunda metade dos anos 80 pela RTVE e implicou a mobilização de vastos recursos humanos e materiais. Durante os anos 90 esses documentários foram exibidos na TVE 2 e na TVE Internacional, com o título A Vista de Pájaro, abrangendo cada capítulo uma província. Em 1999 foi feita esta edição em VHS. Ainda não há edição em DVD.
É um espantoso trabalho de produção e montagem e o seu resultado revela a que ponto de mestria pode chegar a aliança entre o amor às coisas próprias e a competência técnica. A própria Banda Sonora é original, da autoria de Jaime Pérez e... é magnífica. Diria que é uma das melhores formas de conhecer o país vizinho sem passar a fronteira. Tornou-se um clássico, na medida em que, pelo menos as televisões da Catalunha e do País Vasco já produziram um equivalente mais detalhado para o seu respectivo âmbito.
"
Pois sucede que a série acabou de ser editada em DVD, mais precisamente em 12 DVDs. Sublinhe-se o facto de se ter procedido a uma remasterização da imagem e do som, o qual, se não consegue operar milagres, nomeadamente, fazendo com que tivessem adquirido qualidades próprias de uma digitalização original, consegue uma notável melhoria em relação à imagem e som editados em VHS. Desnecessário parece-me, no entanto, ter-se acrescentado algumas (poucas) imagens actuais retiradas de uma série sobre turismo rural. Nem o espírito, nem o conteúdo concreto destas imagens vem a propósito... Mas é evidente que este pormenor é marginal e as melhorias técnicas decorrentes da remasterização constituem só por si uma mais valia preciosa.
Em relação ao post anterior quero salientar ainda algo. Um justo comentário aí colocado leva-me a reparar uma falta: a de não ter salientado a importância da narração/comentário. Este elemento é, de facto, crucial para a qualidade final desta série de referência. Quem o desempenha tão competentemente é José María del Río.
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terça-feira, maio 10, 2005

Guia hispânico (13)

Camilo José Cela - Mazurca para dois mortos (1983)
Camilo José Cela (Iria Flavia, A Coruña, 1916 - Madrid, 2002) é o escritor mais consagrado das modernas letras espanholas (Prémio Nobel em 1989). Foi representante por excelência de algo bem castelhano - o tremendismo. É um realismo radical (com particular atracção pelo sórdido e brutal) que, no caso deste escritor, foi servido por um crescente experimentalismo na direcção de um neo-barroquismo modernista. Contudo, esta inserção num género tipicamente castelhano (filiado nas tradições da novela picaresca) não nos deve fazer ignorar que era filho de mãe inglesa e pai galego. Cresceu na Galiza rural e este pano de fundo aflora com impacto em muitos dos seus romances.
Em Mazurca para dos muertos predomina um ambiente rural que se revela particularmente manhoso, violento e desbragado. Sucedem-se as peripécias grotescas que nos são servidas por uma escrita que denota ironia e humor cruel. Essa Galiza rural, labrega, quase selvagem, emerge assim brutalmente desse brando manto de bruma e chuva miudiña... Algo sempre me seduziu em Cela: a sua arrogante truculência era completamente alheia aos convencionalismos, nomeadamente o nauseante moralismo do politicamente correcto. Esse carácter transparece nos seus romances.
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sábado, abril 23, 2005

Guia hispânico (12)

Fotos da Revolução Mexicana (in The New York Times)
Emiliano Zapata (1915); Coluna revolucionária (1913); Mulheres à porta da prisão de Belén (México, DF) (1920)
Zapata e Villa são os dois mais importantes mitos da Revolução Mexicana. Contudo a relevância que ambos tiveram no imenso complexo desse movimento foi menor do que à primeira vista se possa supor, quanto mais não seja porque estavam à margem das facções vitoriosas. Por outro lado, o conteúdo social que se pode associar a ambos é também incorente e difuso, sobretudo no que diz respeito a Pancho Villa. Este último, aliás, está muito próximo do banditismo tradicional e integra-se num conjunto de caudilhismos plebeus que nessa época imperou por todo o México Norteño. Zapata tem pouco a ver com essa matriz. Emerge no Centro/Sul, no coração do mais tradicional México indígena, sobre um explosivo caldo de terríveis desigualdades sociais centradas em torno da terra. Há efectivamente uma fortíssima pulsão social no zapatismo. De algum modo esta vertente acabou por ser incorporada teoricamente nos valores vitoriosos da Revolução e acabou, na prática, por sustentar a reforma agrária dos anos trinta, com Lázaro Cárdenas.